Eleições turcas revelaram peso da classe média

Mobilidade social e melhora nas condições de vida dos mais pobres garantiram apoio ao partido do primeiro-ministro islâmico moderado Erdogan

Leonardo Trevisan, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

A moça que serve café na Universidade Bilkent, 13 quilômetros do centro de Ancara, não fala de política. Questionada sobre em quem votou, baixa a cabeça, coberta pelo lenço islâmico. Mas quando escuta o nome do primeiro-ministro Recep Tayyp Erdogan abre um sorriso, inteiramente cúmplice. A jovem é parte da nova classe média turca, urbanizada há uma ou duas gerações, que decidiu o pleito.

É a eleitora típica do primeiro ministro do AKP, o partido do islamismo moderado que, no domingo passado, alcançou a terceira vitória consecutiva na Turquia. A família da jovem é de uma das áreas mais pobres. Filha de um camponês, hoje dono de lanchonete. "No ano que vem, vou estudar aqui", aposta a jovem.

Nilufer Narli, professora da Universidade do Bósforo, afirma que os resultados mostraram que 40% dos 73 milhões de turcos hoje pertencem à classe media e "mais de dois terços desses eleitores votaram no AKP".

A especialista explica que as 326 cadeiras conquistadas por Erdogan, entre as 550 do Parlamento turco, são produto de três cenários. Primeiro, a "extrema mobilidade social" nas cidades médias. Depois, o apoio oficial para a população mais pobre das grandes cidades, com ajuda direta e "proteção aos setores informais da economia". Por último, o AKP soube "prometer, do modo certo, ordem, pão e religião", para a população curda no sul do país, dividindo o voto com os nacionalistas curdos.

A ajuda direta na periferia das grandes cidades significa distribuição de comida e carvão para o inverno e a permissão para uso dos serviços médicos públicos, que melhoraram muito nos últimos anos, conta a professora. Tudo em troca de mandar as crianças das famílias beneficiadas para a escola.

Os números da economia turca também explicam o resultado eleitoral. O PIB do país está perto de US$ 1 trilhão - cresceu 8,9% em 2010. Neste ano, a inflação ficará abaixo de 5%. A renda per capita avançou de US$ 3 mil para US$ 11,5 mil entre 2002 e 2010. O desemprego continua o ponto fraco: recuou, mas ainda ficará em mais de 11%.

A dividida oposição turca também se considera vencedora, já que o AKP não obteve a autorização para mexer na Constituição sem referendo e negociação no Parlamento. Agora, Erdogan terá de negociar a nova Constituição. O líder do AKP no Congresso, Hüssein Çelik, afirmou que os debates começarão em outubro, após o recesso de verão.

O centro da discussão não está na mudança do regime parlamentarista para presidencialista, como acusa a oposição, receosa de que Erdogan - que não pode ser reeleito - reservou o cargo para si. Todos os partidos têm interesse na reforma constitucional por outra razão: eliminar a forte centralização, herança do regime militar. Todos desejam maior autonomia local, mais regionalização, impossível hoje.

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