EFE/EPA/ALEXEI NIKOLSKY / SPUTNIK / KREMLIN POOL MANDATORY CREDIT
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Eleito com 76% dos votos, Putin testará seu apoio com reforma previdenciária

Com votação maior que a esperada, líder russo deve usar capital político para implementar ajustes impopulares nas contas públicas e reforçar retórica de ameaça externa para ampliar poder; governo denuncia ataque de hackers estrangeiros durante eleição

Lourival Sant’Anna, Especial Para o Estado / Moscou, O Estado de S.Paulo

19 Março 2018 | 06h00
Atualizado 19 Março 2018 | 13h49

MOSCOU - O presidente russo, Vladimir Putin, se reelegeu no domingo já no primeiro turno, com uma votação ainda maior do que a prevista pela maioria das pesquisas: 76,4%. Numa eleição marcada pela denúncia da Comissão Central Eleitoral de que sofreu ataques de hackers provenientes de 15 países, Putin recebeu um mandato até 2024 para, entre outras coisas, seguir com seus remédios amargos para ajustar as contas públicas, entre eles uma reforma da Previdência. 

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Num distante segundo lugar, vinha Pavel Grudinin, do Partido Comunista, com 11,79%, seguido pelo ultranacionalista Vladimir Zhirinovsky, com 5,66%, e pelos liberais Grigory Yavlinksy e Ksenia Sobchak (cerca de 1% cada). A celebração da vitória do presidente se confundiu com uma comemoração do quarto aniversário da anexação da Crimeia. Putin compareceu rapidamente à festa, na Praça Vermelha, pediu a união dos russos e convocou a multidão a gritar: “Rússia, Rússia”.

A queda do preço do petróleo teve impacto negativo de 8% sobre o PIB russo. As sanções financeiras americanas e europeias contra os bancos estatais, as companhias de petróleo e a indústria armamentista russas, afetaram outros 3%, segundo cálculos do Grupo Expert Econômico (EEG), um centro de pesquisas cujo principal cliente é o Ministério das Finanças.

Para se contrapor à queda de receitas, o governo fez um forte - e impopular - ajuste fiscal. Os salários dos servidores públicos foram congelados, as aposentadorias, desindexadas da inflação, e o orçamento de defesa, cortado em 25%. O próximo passo, segundo Evsey Gurvich, diretor do EEG, seria elevar a idade mínima da aposentadoria, atualmente 60 anos para homens e 55 para mulheres. A expectativa de vida na Rússia é mais baixa do que em outros países emergentes. Mas, entre aqueles que atingem a idade de aposentadoria, os homens vivem em média mais 15 anos e as mulheres, mais 25. “O sistema se torna insustentável”, observa o economista. Durante a campanha, Putin não colocou ênfase sobre a necessidade de fazer essa reforma.

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Um dos motes da retórica do governo Putin é que a Rússia é uma “fortaleza cercada”, ameaçada, de um lado, pelo terrorismo islâmico e, de outro, pelos EUA e seus aliados europeus. Só Putin seria capaz de proteger a Rússia, segundo essa visão.

Como indício dessas ameaças, a presidente da Comissão Eleitoral, Ella Pamfilova, anunciou que o site do órgão e outras plataformas russas foram alvo de um ataque cibernético proveniente de 15 países, na madrugada de domingo. Outra funcionária da Comissão, Maya Grishina, disse que a ação envolveu também telefonemas para os centros de atendimento do órgão.

O ministro das Comunicações, Nikolai Nikiforov, confirmou o “aumento de atividades”, mas disse que confiava na capacidade de proteção das redes russas. A mensagem implícita é a de que são outros países que tentam interferir nas eleições russas, e não o contrário, como acusam os Estados Unidos. 

Especialistas em relações internacionais e defesa em Moscou compartilham da visão do governo de que o Ocidente conspira contra a Rússia. Aleksander Losev, membro do Conselho para Política Externa e Defesa, de Moscou, disse ao Estado que o “escândalo químico” desencadeado pelo governo britânico, com a acusação de que a Rússia estaria por trás do envenenamento do ex-agente duplo russo Serguei Skripal, seria parte dessa trama.

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Os objetivos, segundo Losev, seriam vários: interromper o projeto de construção de um gasoduto entre a Rússia e a Alemanha, para favorecer o fornecimento de gás de xisto dos EUA para a Europa; reaproximar o Reino Unido das principais economias da União Europeia, e com isso ajudar os britânicos, fragilizados pelo Brexit, a atrair fundos nos mercados internacionais; deslegitimar o papel russo no processo de paz na Síria, no momento em que os russos anunciaram ter “provas” de que os “terroristas” possuem armas químicas.

Losev afirma que não surpreendeu o fato de o governo de Donald Trump ter renovado as sanções contra a Rússia e adotado novas, por causa da interferência nas eleições de 2016, embora na aparência fosse mais simpático ao governo de Vladimir Putin: “Os EUA têm na Rússia e na China dois inimigos, não militares, mas no comércio global e na arena geopolítica”. O analista diz que as sanções ameaçam causar uma “erosão no sistema financeiro global”, e abrem um precedente: “Quem pode evitar que os EUA façam isso contra o Brasil ou outro país?”.

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