Eleito há 2 anos, ''Sarkô'' divide franceses

Presidente é impopular, mas lidera intenções de voto para 2012

Andrei Netto, O Estadao de S.Paulo

07 de maio de 2009 | 00h00

Nicolas Sarkozy completou ontem dois anos como presidente eleito da França vivendo um paradoxo: ao mesmo tempo em que amarga a impopularidade, lidera as pesquisas para a próxima eleição, em 2012. A aparente contradição resume bem a relação de amor e ódio que une o "hiperpresidente" de direita e os "sarkofóbicos", seus compatriotas insatisfeitos.Em 6 de maio de 2007, Sarkozy manteve no poder a União por um Movimento Popular (UMP), maior partido de direita do país, ao obter 53% dos votos válidos, superando Ségolène Royal, candidata do Partido Socialista (PS). Desde então, um novo estilo tomou o Palácio do Eliseu. Em lugar da aparência de estadista - e muitas vezes figurativa - que os presidentes franceses até Jacques Chirac se esforçavam para demonstrar, Sarkozy, de 54 anos, "dessacralizou" a função. Deixou o ar aristocrático de lado, substituindo-o por frases como "Cai fora, idiota!", agora associadas à presidência. Além disso, enfraqueceu o primeiro-ministro, François Fillon, arregaçando as mangas e assumindo todos os riscos.O resultado de sua hiperatividade é a saturação. Segundo pesquisa do instituto TNS Sofres, só 28% dos franceses aprovam os dois primeiros anos de seu governo. Outros 63% consideram o balanço negativo. Eleito sob o slogan da "ruptura" - embora fosse do mesmo partido que Chirac -, Sarkozy defendia a reforma do Estado e o fortalecimento do poder de compra por meio da valorização do trabalho. Dois anos depois, as reformas empreendidas em áreas sensíveis, como a Justiça, saúde e o ensino superior, provocam rejeição da opinião pública. A crise econômica global também não favoreceu a dinâmica industrial desenvolvimentista que ele pretendia imprimir.ANTIPATIA"O momento não é positivo em função da crise que atinge a União Europeia", ponderou ao Estado o cientista político Nicolas Sauger, do Centro de Pesquisas Políticas (Cevipof), de Paris. "Mas Sarkozy decepcionou, aumentado as expectativas sem que seu governo conseguisse supri-las." Entre outras razões da antipatia está a forma pública como Sarkozy conduziu sua vida privada, sobretudo a relação com a cantora Carla Bruni.Para analistas, porém, quem aposta na fraqueza do presidente na próxima eleição pode estar enganado. "Mesmo que Sarkozy assuma riscos por se expor permanentemente, é ele quem fixa a agenda da oposição e dos potenciais candidatos, o que é já muito do ponto de vista estratégico", explica Philippe Braud, especialista do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-po).Quando o assunto é sucessão, os número são favoráveis ao "hiperpresidente". Uma sondagem do instituto Ifop indica que Sarkozy teria 28% dos votos em 2012 - 3% a menos do que no primeiro turno em 2007 -, superando seus adversários por oito pontos. Outro dado favorável é que, na mesma época de seus mandatos, François Mitterrand e Chirac apresentavam índices de aprovação de cerca de 25%. "Poderia ser pior. Talvez Sarkozy tenha conseguido demonstrar proatividade no início da crise econômica", disse Jérôme Fourquet, do instituto Ifop. Também são pontos fortes de seu governo, de acordo com pesquisas, a presidência rotativa da União Europeia, no segundo semestre de 2008, a mediação na guerra na Geórgia, em agosto do ano passado, e a defesa da regulamentação do mercado financeiro. Outra demonstração de força de Sarkozy é a estabilidade de François Fillon. Nos anos 90, reformas menos sensíveis que as realizadas hoje levaram os franceses às ruas para derrubar seu primeiro-ministro. Desta vez, o conforto de Fillon no cargo é tamanho que analistas cogitam sua manutenção por todo o mandato. Embora em Paris seja difícil encontrar quem admita ter votado no presidente, na data que marca os dois anos de sua eleição Sarkozy não reagiu aos "sarkofóbicos", trocando o confronto por uma rara discrição.NÚMEROS28% da população aprova o governo Sarkozy63% dos franceses reprovam o governo28% dos eleitores votariam em Sarkozy nas próximas eleições presidenciais, em 2012

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