Eleitor iraquiano reescreve as regras do jogo

Eles manifestaram nas eleições de março não apenas sua rejeição aos candidatos, mas indicaram que o que se supunha que tivesse um grande apelo entre os cidadãos no Iraque terá de ser revisto

Rod Nordland, The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2010 | 00h00

Alguns candidatos às eleições do Iraque obtiveram um resultado tão ínfimo que nem sequer receberam os votos de suas mulheres (pressupõe-se que o único voto que eles tiveram tenha sido o próprio). Talvez elas tivessem outra coisa em mente. Na realidade, estavam em companhia dos eleitores iraquianos, que mostraram uma tendência impiedosamente seletiva ao votar em 7 de março para a escolha dos seus líderes políticos.

Depois que os nomes e os totais dos votos de todos os candidatos foram anunciados na semana passada, houve muitas surpresas. A maior talvez foi a inesperada sofisticação do eleitor, embora os resultados não tenham mostrado um claro consenso neste país frequentemente violento, e alguns grupos estejam exigindo recontagem. Na realidade, levará meses antes que seja possível formar uma coalizão governista num Parlamento com 325 cadeiras, no qual nenhum grupo obteve mais de 91.

As eleições provocaram algo fundamentalmente democrático: os eleitores iraquianos manifestaram não apenas sua rejeição, mas algo bem mais direto - ou seja, o que se supunha que tivesse grande apelo para os eleitores, embora verdadeiro em outras partes, aqui terá de ser revisto.

Em primeiro lugar, o fato de um político ser o titular de uma cadeira não influiu nem um pouco. Apenas 62 dos 275 integrantes do último Parlamento mantiveram suas cadeiras. Igualmente frustradas foram as esperanças políticas de muitos funcionários do governo - administradores, vice-ministros e outros.

Em segundo lugar, o sectarismo continua sendo uma força no Iraque, mas não mais a única força significativa, como foi há cinco anos, nas primeiras eleições após a queda de Saddam Hussein. Embora alguns partidos religiosos tenham tido bons resultados, não foi o suficiente para determinar quem formará um governo. Outros partidos religiosos dificilmente acabaram com uma cadeira própria. Tampouco o tribalismo foi garantia de vitória. Um líder tribal, Hamid Shafi al-Issawi, contava como certos os 50 mil votos de sua enorme tribo Issawi, na Província de Anbar. Mas ele não conseguiu os votos necessários para obter uma cadeira.

O próprio prestígio dos líderes partidários revelou-se duvidoso. Eles escolheram a ordem na qual seus membros apareciam na cédula. Isso garantiu que os próprios líderes fossem grandes vencedores na posição n.º 1. Mas, mais abaixo na lista, a ordem teve menos importância. Por exemplo, Mohammed Ridah Fawzi, seguidor do líder militante Muqtada al-Sadr, acabou em sexto lugar e obteve uma cadeira, embora fosse o 86.º na lista da Aliança Nacional Iraquiana dominada pelos xiitas.

O voto de clientela política praticamente não existiu. O ministro do Interior, Jawad al-Bolani, cujo ministério constituído por 500 mil funcionários inclui as polícias nacional e local, recebeu apenas 3 mil votos e perdeu sua cadeira. O ministro da Defesa, Abdul Qader Mohammed Jassim, comandante do Exército de 150 mil homens, recebeu apenas 887 votos - nem mesmo os votos de um batalhão - embora ele fosse o 16.º da lista Estado da Lei, do primeiro-ministro Nuri al-Maliki, que ficou ao todo com 89 cadeiras - 2 a menos do que a lista de candidatos da vitoriosa Iraqiya, liderada pelo xiita secular Ayad Allawi (que obteve uma grande votação tanto entre os sunitas quanto entre os eleitores seculares).

Até mesmo uma intensa propaganda para um candidato de peso, muito conhecido, não ajudou. O líder da Comissão pela Responsabilidade e Justiça, Ali Faisal al-Lami, que era mencionado diariamente na imprensa por criticar centenas de supostos candidatos do Partido Baath, recebeu 703 votos, desqualificando-se para a própria cadeira.

A seletividade dos eleitores foi particularmente profunda na província sunita de Anbar, onde a lista de Allawi conquistou 11 cadeiras em comparação com as apenas 2 do partido islâmico Tawafaq, que em 2005 foi a única agremiação sunita a concorrer ali. Os próprios líderes do Despertar, ou Filhos do Iraque - a força tribal sunita que passou a se opor aos rebeldes -, não foi bem em Anbar. Eles foram rejeitados pelos eleitores por ser considerados pouco preparados.

Assim como a maioria dos árabes, os iraquianos levam a sério sua política. Mas ao contrário da maioria dos árabes, que são governados por monarcas e autocratas, os iraquianos deixaram as lojas de chá para ir às urnas, e parecem determinados a aproveitar essa oportunidade.

"Agora está acontecendo uma coisa engraçada, as pessoas daquela região de sunitas intransigentes começou a elogiar Amar al-Hakim", líder do Conselho Supremo Islâmico do Iraque, um partido xiita, pela moderação de seus pronunciamentos, disse Saeed al-Jumaily, correspondente local do jornal The New York Times em Falluja. Provavelmente elas retrucavam à réplica de Hakim, quando Maliki rejeitou aceitar os resultados das eleições: "Alguns acreditam na democracia somente enquanto lhes é favorável." Como Jumaily observou, foi um bom sinal. Ele trabalha em Anbar há sete anos e esta é a primeira vez que se sentiu confiante no futuro para ver seu nome publicado neste artigo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

O AUTOR É GANHADOR DO PRÊMIO

PULITZER

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