Eleitores exigem que rivais trabalhem

Cresce a impressão de que disputas entre republicanos e democratas atrapalham funcionamento do Congresso e do Executivo nos EUA

ADAM NAGOURNEY, THE NEW YORK TIMES, WHEAT RIDGE, EUA, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2014 | 02h00

Jane Dempsey, de 59 anos, está desempregada desde 2007, mas ainda tem fé na economia do Colorado. O que mais a desanima são as autoridades que a representam na capital dos EUA. Ela está entre os eleitores americanos que querem menos disputas e mais trabalho entre os parlamentares no Congresso.

"O pessoal briga demais em Washington", disse Jane, que deu seu voto aos candidatos democratas ao Senado e ao governo do Estado, em duas das disputas mais apertadas do país. "Todos querem fazer as coisas da sua maneira e as coisas acabam não sendo feitas como deveriam", afirmou. Ao ser questionada se seu voto mudaria alguma coisa, ela desviou o olhar. "Não sei. Não sei mesmo."

A visão sombria desta eleitora sobre a política americana reflete a de todo o país e os eleitores que entravam ou saíam dos lugares de votação expressavam frustração e ressentimento contra Washington, contra o presidente Obama, contra o Congresso, contra republicanos e democratas, contra os grandes doadores das campanhas e contra a decisão da Suprema Corte que abriu as comportas financeiras para a propaganda negativa em Estados como o Colorado.

Mesmo com a recuperação da Bolsa ou após a queda encorajadora da taxa de desemprego, havia uma nítida ansiedade a respeito da economia. Jane não era a única pessoa que dizia não conseguir trabalho. O otimismo sobre o futuro declinava neste clima de catástrofe generalizada. A sensação de pessimismo parecia maior do que na última grande eleição: na opinião de cerca de dois terços dos eleitores, a nação está no caminho errado - em 2012, metade dos americanos tinham essa sensação -, segundo pesquisas de boca de urna.

"Tenho a impressão de pertencer a uma classe que está sendo deixada para trás neste redemoinho", disse Etrulia Byrd, de 37 anos, uma garçonete de Anchorage, Alasca. "Sou de uma classe de gente que trabalha muito e, provavelmente, nunca irá muito longe e mal consegue pagar as contas."

Apesar do sentimento negativo, muitos eleitores disseram que achavam seu voto muito importante - particularmente os republicanos, segundo os quais, controlar o Senado permitirá conter o que consideram os excessos de Obama.

"Os democratas estão gastando demais. O Obamacare (reforma do sistema de saúde de Obama) é uma farsa e precisa ser rejeitado - ou pelo menos repelido em grande parte", afirmou William Burke, de 66 anos, um advogado aposentado que mora na Geórgia e votou no Partido Republicano.

No entanto, muitos outros disseram que, depois de assistirem às brigas em Washington, acham que nada fará muita diferença. "Parece que eles não estão fazendo mais nada", disse John Miller, eleitor independente de Iowa. "A única coisa que fazem é brigar uns com os outros e não concluem mais nada."

"A economia está numa situação terrível", disse John Madron, de 61 anos, desempregado desde 2009. Shari Pizarro, de 49 anos, uma democrata que trabalha como garçonete em St. Petersburg, Flórida, disse que votou nos democratas, mas que espera pouco de Washington - agora ou no futuro. "Não consigo entender o que está acontecendo na capital, mas o que sei é que não se pode confiar em ninguém", afirmou.

Em Racine, Wisconsin, Jeffrey Kowsalczuk, agente comercial de uma empresa de transportes rodoviários, não parecia menos decepcionado que Shari depois de votar no Partido Republicano. "Estou cansado de todas essas brigas e conflitos", disse.

Um bom político é algo que não existe, sinto muito", disse Christi Miller, de 43 anos, de Hot Springs, Arkansas, partidária de Obama. "Eles podem até começar sendo bons, mas acho que, quando entram no esquema, começam a aceitar dinheiro e é preciso tomar cuidado com os que contribuíram para suas campanhas. Eles se mostrariam empenhados se realmente tivessem se candidatado a um cargo público pelas razões certas", acrescentou. "Só que eles se candidatam apenas pelo dinheiro e pelo poder."

Em New Hampshire, Jennifer Giles, de 48 anos, republicana, disse achar que os candidatos se preocupam o tempo todo com o próprio futuro. "Acho que as pessoas só estão interessadas em se reeleger, em vez de cumprir sua obrigação."

Essas são algumas das opiniões expressadas pelos cidadãos numa eleição na qual diversos analistas esperavam um comparecimento muito baixo, refletindo a decepção de várias pessoas com o governo.

Foram inúmeros os que se disseram cansados de serem bombardeados pelas campanhas de ataques recíprocos na TV, de e-mails pedindo dinheiro e panfletos enchendo suas caixas de correio. Os bombardeios só reforçaram seu desencanto com Washington. Alguns eleitores culpam ambos os partidos pelo problema. Entretanto, em termos gerais, a culpa foi basicamente dividida segundo linhas partidárias, o que não chega a ser surpreendente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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