Beatriz Bulla / Estadão
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Eleitores que aderiram a Trump em 2016 veem impeachment como piada

Apesar da queda de braço com os democratas, da crise política e da pressão causada pela investigação na Câmara, presidente americano ainda segue popular nos Estados do Cinturão da Ferrugem, fundamental em sua campanha pela reeleição

Beatriz Bulla, Enviada Especial, Northampton, EUA

06 de outubro de 2019 | 06h00

NORTHAMPTON, EUA - Sentado em uma cadeira na varanda de sua casa, em Northampton, no Estado da Pensilvânia, o aposentado Bill Smith responde de maneira direta sobre o que pensa do processo de impeachment do presidente dos EUA, aberto pelos democratas na Câmara dos Deputados. “Sou eleitor de Donald Trump, qual o problema?”

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Ao lado de Smith, Val Wagner ajuda na defesa do presidente. “Ele não liga para dinheiro, ele já tem dinheiro. Ele é realmente honesto. O impeachment é uma besteira, uma piada. Parece que os democratas estão no ensino médio”, disse Val, que sempre votou em democratas até conhecer Trump.

Em 2016, dos pouco mais de 3 mil condados americanos, só 209 mudaram de democratas para republicanos. Northampton é um deles. Essa troca foi crucial para que Trump chegasse à Casa Branca

Locais identificados com a classe operária têm média de renda familiar e taxas de educação universitária mais baixas do que a média do país e, após décadas de prosperidade industrial, esse tipo de emprego entrou em extinção - tanto que parte do Meio-Oeste americano, incluindo os Estados de Michigan, Pensilvânia, Ohio, Indiana, Wisconsin e partes de Illinois e Iowa ganhou o termo pejorativo de “Cinturão da Ferrugem”.

O boom econômico foi durante o desenvolvimento das indústrias de aço e carvão. Northampton chegou a abrigar uma siderúrgica, a Bethlehem Steel Corporation, que faliu em 2003. Hoje, os escombros da usina se tornaram um espaço de eventos e cassino.

O Cinturão da Ferrugem é um termômetro do apoio de Trump e um teste de sua resistência. O Estado visitou dois dos três condados da Pensilvânia que votaram no republicano após duas vitórias seguidas de Barack Obama, em 2008 e 2012. Nenhum entrevistado que tenha se apresentado como eleitor do presidente acredita que o impeachment será levado adiante.

O condado de Luzerne não votava majoritariamente em um candidato presidencial republicano desde 1988. Agora, a população parece repetir os mesmos lemas defendidos por Trump. Os eleitores criticam a imprensa, atacam a imigração ilegal, dizem que a China rouba os americanos, que a economia melhorou e o impeachment é uma “perseguição” democrata.

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“Desde o dia em que ele foi eleito, os democratas tentam destitui-lo. Nada foi provado”, afirma Chuck Dekmar, dono de uma lanchonete em Luzerne. Registrado como republicano, ele diz votar “com a consciência”, mas nem sempre no mesmo partido.

Um levantamento do Wall Street Journal e da ONG Economic Innovation Group mostra que o crescimento econômico e os novos empregos nestas regiões ficaram atrás da média nacional nos anos em que Trump esteve na presidência, mas a aprovação do republicano segue próxima de 50%. Os dados foram coletados em 77 condados identificados com a classe operária.

O emprego industrial caiu na Pensilvânia - cerca de 8 mil postos foram perdidos, de agosto de 2018 a agosto de 2019, de acordo com o Departamento do Trabalho. Em meio às guerras comerciais de Trump e à desaceleração da demanda, as indústrias seguram investimentos.

Mas, para os eleitores de Trump, a economia vai bem e só não está melhor pela falta de apoio dos democratas. “O impeachment não vai chegar a lugar algum. Ele divulgou a transcrição da conversa, não há nada errado, é tudo bobagem”, disse Mark Yefko, consultor de vendas de Wilkes-Barre.

Gerente de uma cervejaria do outro lado da rua, Lisa Blockus repete o mantra. “Ele não fez nada de errado. Eles não gostam dele porque ele não é político e diz o que as pessoas comuns querem ouvir”, afirma Lisa, ex-eleitora de Obama.

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