Eleitores rejeitam imunidade a Berlusconi em referendo

Em referendo realizado ontem e hoje na Itália, os eleitores votaram a favor de abandonar a energia nuclear, em um resultado que é um sinal claro do crescente descontentamento popular com o governo conservador do primeiro-ministro Silvio Berlusconi. O premiê pediu aos eleitores nas últimas semanas que não votassem no referendo de quatro questões, organizado pelos partidos da oposição de centro-esquerda. O referendo perguntou à população se ela desejava derrubar leis feitas pelo governo recentemente, que previam a volta da energia nuclear e a privatização do sistema de abastecimento de água e, além disso, davam imunidade parcial a Berlusconi e aos ocupantes dos principais cargos do governo.

ANDRÉ LACHINI, Agência Estado

13 de junho de 2011 | 17h05

Uma maioria de 57% do eleitorado compareceu às urnas, uma marca bem acima dos 50% necessários para validar o referendo e que foi atingida pela última vez em 1995, informou o Wall Street Journal. Mais de 95% do eleitorado votou pelo "sim", ou seja, para derrubar as quatro leis. "Este foi um voto contra a energia nuclear. Ao apelar às pessoas que não votassem, Berlusconi transformou isso em uma eleição contra si próprio", disse Giovanni Sartori, professor de Ciências Políticas na Universidade de Florença.

Berlusconi tornou a volta da energia nuclear uma das suas prioridades de governo. A lei de imunidade também era um dos principais planos: a legislação permite ao primeiro-ministro e aos principais funcionários do governo não comparecerem aos tribunais para serem julgados, citando uma agenda de trabalho bastante ocupada. Os críticos, contudo, há tempos caracterizavam a lei como feita sob medida para proteger Berlusconi de quatro processos criminais que ele enfrenta atualmente.

O premiê italiano rapidamente reconheceu a derrota hoje. "Os italianos deixaram clara sua posição em cada uma das questões. O governo e o Parlamento agora precisam levar em conta esse resultado", disse o escritório de Berlusconi, em comunicado.

Derrota

O resultado de hoje é particularmente significativo após Berlusconi e seus aliados de centro-direita terem sido derrotados nas eleições municipais e regionais que ocorreram há duas semanas. Embora Berlusconi ainda possua a estreita maioria no Parlamento que precisa para governar, sua popularidade teve uma queda acentuada nos últimos meses. A cronicamente enfraquecida economia italiana está pesando sobre o eleitorado, particularmente sobre os jovens, enquanto o público é alimentado pelas notícias dos problemas judiciais do premiê, incluído seu julgamento mais recente, no qual é acusado de ter pago para fazer sexo com uma adolescente marroquina, que era menor de idade, e ter tentado encobrir o escândalo - acusações que Berlusconi nega.

A Liga do Norte, principal aliada de Berlusconi no Parlamento, também foi derrotada. "Há duas semanas, tivemos o primeiro tapa na cara nas eleições regionais. Agora, no referendo, recebemos a segunda bofetada", disse Roberto Calderoli, ministro das Reformas e um importante político da Liga do Norte, partido de direita.

Energia nuclear

A Itália abandonou a energia nuclear em 1987, logo após o desastre atômico de Chernobyl, na Ucrânia. Na época, a população rechaçou o uso da energia nuclear em um plebiscito. Na eleição de ontem e hoje, claramente as imagens do desastre atômico na usina japonesa de Fukushima tiveram um peso na mente dos eleitores, levando as pessoas às urnas. Como outros países europeus, a Itália deixou em suspenso seus planos nucleares após o desastre japonês em março, mas o governo Berlusconi tentava ressuscitar os projetos atômicos, que previam a construção de várias usinas ao redor do país a longo prazo. Já na manhã de hoje, com a divulgação dos primeiros resultados, Berlusconi disse que sem a energia nuclear a Itália terá agora que "se comprometer de maneira forte com a energia renovável".

Sem a fonte nuclear, a "Itália gastará muito dinheiro com energia", disse Chicco Testa, chefe do Fórum Nuclear da Itália e ex-dirigente da empresa nacional de energia elétrica, a Enel. Testa era contra o uso da energia nuclear em 1987, mas mudou de ideia. "Existe excesso na oferta de gás natural e carvão, mas eu não sei quais serão os preços em dez anos, uma vez que eles estão ligados ao petróleo. Baseado na experiência passada, eu vejo preços maiores", disse.

Abastecimento de água

Os dois referendos relacionados à água perguntavam aos italianos se deveriam ser derrubados os planos do governo para privatizar as concessionárias e remunerar as empresas privadas pelos investimentos feitos. O governo argumentava que com a privatização o sistema ganharia em eficiência, mas os críticos afirmaram que isso levaria a contas mais altas.

Os partidos da centro-esquerda italiana, que fizeram ampla campanha para os eleitores comparecerem, estão eufóricos hoje. Pierluigi Bersani, líder da oposição, disse que o resultado foi um sinal decisivo da necessidade de mudanças políticas e pediu a renúncia de Berlusconi. "Esse referendo marca um divórcio entre os italianos e o governo. Neste ponto, o governo precisa ir embora e convocar novas eleições", disse Bersani. As informações são da Dow Jones.

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