Adriana Loureiro Fernandez/The New York Times
Adriana Loureiro Fernandez/The New York Times

Eles defenderam a revolução na Venezuela, e agora se tornaram suas mais recentes vítimas

Na tentativa de concluir sua consolidação do poder, Nicolás Maduro está reprimindo os ativistas de esquerda queantes o defendiam, mas começaram a criticar a corrupção e o clientelismo do seu governo

Isayen Herrera, Anatoly Kurmanaev, Tibisay Romero e Sheyla Urdaneta / The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 09h12

GÜIRIA, VENEZUELA - O apresentador de um programa de rádio popular, O Combate do Povo, sempre elogiou disciplinadamente o Partido Socialista que governa a Venezuela, mesmo enquanto milhões de pessoas passavam a viver na penúria sob esse regime. Mas, quando uma aguda escassez de gasolina paralisou seu remoto vilarejo de pescadores no verão, ele abandonou a linha do partido.

No seu programa, o apresentador José Carmelo Bislick, socialista de longa data, acusou os diretores locais do partido de terem desviado combustível obrigando a maioria das pessoas a ficar em fila durante dias diante dos postos de gasolina vazios.

Semanas mais tarde, no dia 17 de agosto, quatro homens mascarados e armados invadiram a casa de Bislick dizendo que ele tinha “avançado no sinal vermelho" antes de espancá-lo diante da família e levá-lo embora na calada da noite. Ele foi encontrado baleado quatro horas mais tarde, vestindo sua camisa favorita de Che Guevara.

Os responsáveis pela morte de Bislick ainda não foram localizados nessa cidade de 30 mil habitantes, onde todos o conheciam, bem como sua contínua dedicação à revolução socialista da Venezuela. O prefeito socialista jamais mencionou o crime nem visitou a família, para quem o assassinato teve motivação política.

“Denunciar irregularidades é tão grave a ponto de custar a vida de um homem que só queria o bem-estar social?”, indagou a irmã de Bislick, Rosmery Bislick.

A morte dele parece ser parte de uma onda de repressão contra esquerdistas que se afastaram do presidente Nicolás Maduro, que parece determinado a consolidar seu poder nas eleições parlamentares em 6 de dezembro. A eleição, boicotada pela oposição, que a considera uma farsa, pode levar uma das democracias mais tradicionais da América Latina a se aproximar de um estado de partido único.

Depois de esmagar os partidos políticos que se opunham à sua versão do socialismo, os críticos de Maduro dizem que ele apontou o aparato de segurança do Estado contra os aliados ideológicos desiludidos, repetindo o rumo trilhado por autocratas esquerdistas da União Soviética até Cuba.

O gabinete de Maduro não respondeu aos pedidos de contato para a reportagem.

“Quem faz críticas é vinculado à oposição, à direita, é chamado de traidor", disse Ares Di Fazio, ex-líder da guerrilha urbana e líder do Partido Tupamaros, de extrema esquerda, desmontado pelo governo em agosto depois de manifestar seu descontentamento.

Antigos apoiadores do governo que, nos meses mais recentes, foram às ruas nas cidades provincianas para denunciar o colapso dos serviços públicos foram reprimidos pelas forças de segurança. Funcionários públicos que denunciam a corrupção são acusados de sabotagem.

Membros da aliança eleitoral do governo que decidem se candidatar como independentes são desclassificados. Aqueles que insistem são assediados pela polícia ou acusados de crimes espúrios.

Em parte, a repressão é resultado da decisão de Maduro de abandonar as politicas de distribuição de renda de seu antecessor, Hugo Chávez, em favor de um equivalente ao capitalismo de compadrio para sobreviver às sanções americanas. Na prática, a mudança legalizou o vasto mercado negro da Venezuela e fomentou a corrupção generalizada, criando uma nova ordem econômica que beneficiou o exército e as elites empresariais leais a Maduro.

O resultado é um incrível abismo entre a retórica oficial, que culpa as sanções pelo colapso nacional, e o estilo de vida extravagante exibido pelos clientes do governo em supermercados repletos de produtos importados caros e concessionárias de carros de luxo.

“Alguns convivem com um embargo, enquanto outros fazem compras em butiques", disse Oswaldo Rivero, destacado ativista da esquerda venezuelana e apresentador de Tv nacional, que passou anos fazendo ataques à oposição nos seu programa.

Quem questiona isso “é triturado", disse Rivero, que agora é chamado de traidor e ameaçado nas redes sociais por se manifestar contra a corrupção.

Nas duas décadas mais recentes, os partidos de esquerda representados por ativistas como Rivero ajudaram Chávez (e, em seguida, Maduro) a se manter no poder.

Os partidos, alguns dos quais remontam a insurreições da época da Guerra Fria, fizeram campanha para os candidatos de Maduro, participaram de comícios do governo e às vezes assediaram manifestantes da oposição. Sua mensagem de mudança radical encontrava eco nas favelas e entrepostos rurais da Venezuela, onde o povo estava cansado da desigualdade histórica.

Mas esses aliados ficaram cada vez mais desiludidos com o autoritarismo e a corrupção de Maduro. Esse ano, pela primeira vez, eles decidiram apresentar seus próprios candidatos ao Congresso. Maduro respondeu rapidamente.

Em agosto, os tribunais colocaram nomes fiéis a Maduro no alto escalão do Partido Tupamaros e de três outras agremiações.

A polícia deteve o diretor do Partido Tupamaros, José Pinto, acusado de assassinato (sem nenhuma prova), assediou as lideranças do Partido Comunista e deteve brevemente um esquerdista veterano, Rafael Uzcátegui, 73 anos, sob acusação de ter visitado um bordel. Todos os réus se disseram vítimas de perseguição política.

Uzcátegui alega que 37 membros do seu partido, Pátria para todos, foram detidos por fazer campanha contra o governo nas próximas eleições. Quatro deles tinham simplesmente pichado uma parede com a mensagem “Salário digno já", um apelo para que o salário mínimo da Venezuela seja aumentado (atualmente, equivale a US$ 2 na moeda local).

“O governo não teme mais a direita", disse Uzcátegui. De acordo com ele, a esquerda é temida “porque eles sabem que estamos dizendo a verdade ao povo".

Uma ativista do Partido Comunista, Isabel Granado, 32 anos, decidiu se candidatar para o congresso contra o governo em dezembro, dizendo que este não representa mais os pobres.

Dois anos atrás, ela e duas dúzias de pequenos agricultores da cidade dela, El Vigía, no pé dos Andes, decidiram ocupar um terreno, que de acordo com elas as autoridades tinham declarado ocioso desde 2010. O grupo de agricultores se apresentou como A Poderosa Mão de Deus, e começou a cultivar alimentos para suas famílias.

Durante muito tempo, o governo apoiou ocupações desse tipo para conquistar a população rural na tentativa de reduzir a pobreza.

Subitamente, no dia 24 de setembro, Isabel disse que um esquadrão das operações especiais da polícia, todo vestido de preto, invadiu a casa dela, jogou sua filha de 9 anos no chão e ameaçou espancar a ativista na frente da filha se ela não os acompanhasse. Ela foi levada a uma delegacia, acusada de ocupação ilegal do terreno e roubo de gado, acusação que Isabel negou.

Ela foi liberada no dia seguinte por falta de provas, mas voltou a ser detida dois dias mais tarde, dessa vez por comandos militares. Isabel disse que permaneceu algemada enquanto detida, sendo ameaçada com falsas acusações de porte de drogas e até com a execução.

Não foi uma ameaça sem credibilidade em um país no quaI investigadores das Nações Unidas implicaram a FAES, polícia de operações especiais de Maduro, em milhares de execuções extrajudiciais nos bairros mais pobres nos anos mais recentes.

“Fiquei aterrorizada, pois além de ser ativista social, sou mãe", disse Isabel. “Só conseguia pensar nos meus filhos.”

Isabel disse que o momento, a brutalidade e a natureza arbitrária das detenções indicava um desejo das autoridades locais de dissuadi-la de disputar a eleição para o congresso. Ela disse viver com medo constante, mudando de esconderijo com frequência. Mas disse que levaria adiante sua campanha. “O apoio que recebemos do povo é o que mais machuca o governo", disse ela.

Depois de um tenso período de calmaria causado pela pandemia, a insatisfação popular com o governo de Maduro explodiu em mais de mil protestos relâmpago em setembro.

Diferentemente das ondas anteriores de descontentamento, as manifestações mais recentes se concentraram nos Estados rurais, mais pobres, que há muito formam a base de apoio do partido do governo. Os manifestantes, muitos deles antigos defensores do governo, exigiam comida, combustível e eletricidade, e não mudanças políticas, de acordo com entrevistas realizadas em quatro cidades afetadas.

Maduro respondeu à insatisfação no coração do socialismo com a mesma repressão aplicada contra os adversários. Mais de 200 manifestantes foram detidos nos protestos de setembro, e uma pessoa foi morta pela polícia, de acordo com o Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais, grupo sem fins lucrativos que acompanha os distúrbios.

“O que estão fazendo parece muito com uma ditadura", disse Edito Hidalgo, ativista veterano dos Tupamaros que comandou um protesto na cidade de Urachiche, no oeste do país, em setembro. “Estão no poder e não pretendem deixá-lo.”

Urachiche, uma pequena comunidade de agricultores, elegeu candidatos socialistas desde o início da era Chávez, em 1999, com a promessa de governar para o povo. “É uma cidade revolucionária", disse Hidalgo, que relatou com orgulho a visita de Che Guevara a Urachiche em 1962.

Depois de suportar durante sete anos a deterioração das condições econômicas na Venezuela, a cidade finalmente levantou sua voz em setembro. Milhares de moradores protestaram pacificamente marchando até a prefeitura, cantando o hino nacional, para apresentar ao prefeito uma proposta de melhoria para o fornecimento de alimento e combustível.

Uma banda apareceu com diferentes instrumentos tradicionais — violões em miniatura e maracas — fechando o protesto com uma apresentação improvisada, disse Hidalgo. “Então todos foram para suas casas sem arremessar uma única pedra.”

Alguns dias mais tarde, agentes da FAES chegaram à casa de Hidalgo procurando por ele. Alertado pela mulher, ele fugiu e passou duas semanas escondido, enquanto forças de segurança assediavam seu bairro. “Eles decidiram que precisam se livrar de Edito Hidalgo, que está pregando a revolução ao povo", disse ele.

Pesquisas de opinião mostram que o Partido Socialista recebe atualmente o apoio de apenas um em cada dez venezuelanos. Em Güiria, a família de Bislick, o apresentador de rádio assassinado, ainda aguarda justiça. 

Depois que os homens armados sequestraram Bislick, sua família correu para a delegacia de polícia — o carro deles estava sem gasolina, como a maior parte da cidade.

Em vez de começar imediatamente uma investigação, os policiais passaram duas horas anotando detalhadamente os relatos deles, disseram os parentes. Desesperada, a família foi então ao escritório do partido do governo, onde Bislick trabalhou por duas décadas, para pedir um pouco de combustível para procurá-lo. A solicitação foi negada.

Um vizinho acabou descobrindo o corpo de Bislick na mata.

As denúncias de corrupção feitas por Bislick tinham se tornado tão populares que os moradores ouviam o programa dele com o volume alto em seus carros durante os apagões, de acordo com o colega de rádio dele, José Alberto Frontén. “Nós fazíamos críticas duras no programa e sabíamos que os golpes estavam atingindo o alvo", disse Frontén. “Mas nunca percebemos que haveria troco.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

 

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