Eles matam cavalos, não matam?

Protestos na Síria são os mais importantes da atualidade, porque a mudança de regime no país teria um efeito devastador no Oriente Médio

Thomas L. Friedman, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2011 | 00h00

Circula uma história entre os usuários libaneses do Facebook sobre um ativista sírio que foi parado numa blitz do Exército. Ele levava um laptop e uma pen drive no banco do carro. O soldado examinou e perguntou: "Você tem um Facebook?" "Não", respondeu o homem, que foi liberado.

É digno de pena o fato de o soldado procurar um Facebook, mas assim é o regime sírio. Damasco realmente não faz ideia do que atingiu o país nem de como o Estado perdeu o controle sobre da população armada somente com câmeras de celulares e, sim, com acesso ao Facebook e ao YouTube.

Não vejo como o presidente sírio Bashar Assad possa se manter no poder. Não pelo Facebook, mas por uma razão mais sutil: muitos sírios perderam o medo. Agora, a luta é até a morte.

A crise síria é o maior espetáculo da Terra por uma razão simples: a Líbia implode, a Tunísia implode, o Egito implode, o Bahrein implode - a Síria explode. O surgimento da democracia em todos esses outros países árabes mudaria seus governos e teria implicações regionais no longo prazo. No entanto, um colapso na Síria mudaria todo o Oriente Médio.

A democratização do regime sírio teria repercussões enormes no Líbano, país que a Síria controla desde os anos 70; em Israel, que conta com a Síria para manter a paz nas Colinas do Golan; no Irã, pois Damasco é a principal plataforma de exportação da Revolução Iraniana; na Turquia, que faz fronteira com a Síria e compartilha muitas de suas comunidades étnicas, principalmente curdos, alauítas e sunitas; no Iraque, que sofre com a Síria servindo de corredor para jihadistas suicidas; e no Hamas, cujo líder vive em Damasco.

Evidentemente, a questão é a seguinte: os árabes conseguirão realmente se unir e redigir um contrato social para viverem juntos como cidadãos iguais - e não como seitas rivais - quando a mão de ferro dos regimes for removida?

A resposta não está clara, mas quando se vê tanta gente desafiando pacificamente esses regimes, como na Síria, isso nos diz que alguma coisa muito profunda quer subir à tona. Embora nenhum árabe seja hoje realmente um cidadão com plenos direitos e deveres, como disse Hanin Ghaddar, editora de um site libanês que monitora as revoluções, "eles querem ser". Isso é o que move essas sublevações.

Ghaddar voltou recentemente de Nova York, onde topou com manifestações rivais no Central Park entre pessoas que defendiam as carruagens puxadas a cavalo e ativistas em defesa do direito dos animais. "Meu Deus! Gostaria de viver em um país que se dá ao luxo de se preocupar com direitos dos animais", disse Hanin. "Ainda estamos muito longe disso." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA E ESCRITOR

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