Julien Warnand/EFE
Julien Warnand/EFE

'Eles morreram como ratos em porões', diz sobrevivente

Naufrágio no Mediterrâneo pode ter deixado 700 mortos; UE realiza reunião de emergência para tentar solução para fluxo de imigrantes

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo

20 de abril de 2015 | 07h02

GENEBRA - "Muita gente morreu como ratos em porões." A declaração é de uma das testemunhas que sobreviveu ao pior naufrágio no Mar Mediterrâneo com imigrantes neste fim de semana e que pode ter feito até 700 mortos. Por enquanto, apenas 28 sobreviventes foram encontrados e, em explicações dadas às entidades internacionais e à Guarda Costeira italiana, os imigrantes relatam cenas de horror e desespero. 

O Estado teve acesso às transcrições dos depoimentos dos imigrantes, sob a condição de não revelar nem o nome e nem a nacionalidade dos sobreviventes. Um deles apontou que muitas famílias estavam na parte inferior do barco, em porões usados para o transporte de cargas. "Eles estavam trancados e por isso não conseguiram sair quando o barco começou a virar", indicou. 

Questionado sobre quem teria os trancados, o imigrante respondeu que eram os traficantes que haviam tomado a decisão, sem dar detalhes. "Eram em sua maioria famílias e lembro-me de que vi muitas crianças indo aos porões no momento do embarque", disse. Ele não soube dizer quantas pessoas poderiam estar na parte inferior do barco. 

Do lado de fora, quando o pesqueiro começou a virar, o que se ouviu foi o "total desespero". "Ouvíamos gritos e como se fossem ratos tentando escapar", disse. 

Na noite entre sábado, 18, e domingo, 19, um velho pesqueiro de 30 metros que cruzava o mar com imigrantes irregulares naufragou e, por enquanto, apenas 28 pessoas foram resgatadas com vida e outros 20 corpos foram encontrados.

Para líderes, a Europa vive um fluxo de pessoas de "proporções épicas" e um novo "tráfico de escravos", o que exigirá repensar as políticas migratórias.

O novo acidente levou o papa Francisco a fazer duras críticas, enquanto a Organuzação das Nações Unidas (ONU) acusou os governos europeus de não agir para não perder votos em eleições e solicita que uma operação de resgate permanente seja estabelecida.

Se confirmada as 700 mortes, o número de vítimas no Mediterrâneo em 2015 já chega a 1,6 mil, dez vezes os números do primeiro tresimetre de 2014. 

Nesta segunda-feira, 20, ministros europeus foram convocados de emergência em Luxemburgo para tratar do drama e, diante de um número cada vez maior de mortes, a União Europeia está sendo pressionada pela ONU e por organizações não governamentais a voltar a implementar operações de resgate. 

O governo italiano também fez um apelo por solidariedade e quer que o tema da imigração seja assumido por todo o bloco, e não apenas os países do Sul. 

"Não existe mais álibi para a Europa", declarou a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, antes da reunião. "Temos o dever moral e político de assumir nosso papel. O Mediterrâneo é nosso mar e precisamos agir juntos como europeus." 

Ela também admite que é a credibilidade da Europa que está em jogo. "Achar uma solução também é de nosso interesse e do interesse de nossa credibilidade. A Europa foi construída em torno da proteção dos direitos humanos e precisamos ser consistentes com isso." 

Mas na Frontex, a agência de contrôle de fronteiras da UE, o tom ainda é de que apenas operações de resgate não solucionará. Para o diretor Fabrice Leggeri, "não se trata apenas de um tema de imigração, mas um assunto de geopolítica internacional". 

Ele ainda colocou em dúvida o número de 700 desaparecidos e pediu que ONGs tivessem "responsabilidade" ao apresentar suas versões do drama. O número, porém, foi apresentado pela ONU.

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