'Eles vão continuar a matar garotos negros', diz manifestante em Ferguson

'Eles vão continuar a matar garotos negros', diz manifestante em Ferguson

Ruas de Ferguson estavam mais vazias e menos violentas nesta terça do que no dia anterior, quando edifícios e carros foram incendiados

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Missouri, O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2014 | 07h11



A decisão de um grande júri de Saint Louis de isentar o policial branco que matou um jovem negro a tiros em Ferguson não surpreendeu Althea Mitchell. Ainda assim, a enfermeira afro-americana de 28 anos estava nas ruas de Ferguson ontem para protestar contra a conclusão dos 12 jurados, 9 dos quais eram brancos.

A frustração diante de uma história familiar que se repete com dolorosa frequência motivava muitos dos que se manifestaram um dia depois de a violência ter destruído prédios e carros na cidade de 21 mil habitantes do Missouri.

"Não vai acontecer nada. Eles vão continuar a matar garotos negros como pombas", disse Mitchell ao Estado em frente ao Departamento de Polícia de Ferguson. O local reuniu o pequeno grupo de manifestantes que saiu às ruas da cidade ontem, um dia depois de o grande júri concluir que não havia elementos suficientes para o início de um processo criminal contra o policial Darren Wilson, o autor dos disparos que matou Michael Brown, de 18 anos.

Com 24 anos, o marido de Mitchell, Leo Cotton, não é muito mais velho. Ontem, ele estava ao lado da mulher na manifestação. "Eu tenho problemas constantes com a polícia só porque sou um brother negro caminhando pela rua."

Na opinião de Mitchell, o processo que levou à isenção de responsabilidade de Wilson pela morte de Brown foi um jogo com resultado arranjado. "Nós somos uma espécie visada."

Nick Walker, de 38 anos, disse que sentia raiva pela decisão do júri. Mas também não se surpreendeu. "Todos os dias a polícia mata pessoas negras", exagerou Walker. Segundo dados do FBI obtidos pelo site vox.com, a polícia matou 426 suspeitos em 2012, dos quais 31% eram afro-americanos. O porcentual é equivalente a 132 pessoas, o que representou uma morte a aproximadamente cada três dias.

"Eu sinto a discriminação da polícia cada vez que dirijo meu carro, que vou ao trabalho, que saio de casa. Sou um alvo pela cor da minha pele, pela maneira como me visto", observou Walker. Em sua opinião, a consequência mais significativa da morte de Brown pode ser a exigência de que policiais usem câmeras em seus uniformes que registrem suas ações, medida vista como uma forma de conter abusos.

"Nada deveria ter acontecido da maneira que aconteceu", afirmou Kayla Farmer, de 15 anos, que participava ontem pela segunda vez de um protesto contra a morte de Brown. A primeira foi logo depois que ele teve seu encontro fatal com Wilson, no dia 9 de agosto. "Eu não sabia o que esperar do grande júri, mas eu me sinto frustrada com a decisão."

Rachel Fantroy, de 18 anos, se juntou aos protestos pela primeira vez ontem. "Decidi vir porque isso é algo que pode acontecer na minha própria família", disse Fantroy, que é negra e tem dois irmãos mais velhos que ela. Outra motivação foram as cenas de vandalismo e violência que ocorreram depois do anúncio do grande júri, na segunda-feira. "Eu queria que os protestos fossem mais organizados, sem destruição", disse Fantroy, que deseja estudar Enfermagem.


As ruas de Ferguson ontem estavam mais vazias e menos violentas que no dia anterior, quando edifícios e carros foram incendiados e pelo menos 150 tiros disparados para o ar.

A polícia bloqueou o trecho da rua West Florissant que foi o epicentro das manifestações desde a morte de Brown. Sem poder se reunir no local, as pessoas se concentraram em frente ao Departamento de Polícia de Ferguson, guardada por dezenas de integrantes da Guarda Nacional.

Depois da devastação provocada pelos protestos de segunda-feira, o governador de Missouri, Jay Nixon, enviou 2.200 soldados adicionais para reforçar a segurança em Ferguson. Ainda assim, dois carros de polícia foram incendiados nas proximidades da prefeitura da cidade.

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