AP
AP

Elevado número de estrangeiros dificulta trabalho de legistas

Segundo o governo belga, entre os mortos e feridos há pessoas de mais de 40 nacionalidades

Andrei Netto, ENVIADO ESPECIAL / BRUXELAS, O Estado de S. Paulo

24 de março de 2016 | 05h00

Uma cidadã do Peru, Adelma Tapia Ruiz, de 37 anos, foi a primeira vítima dos atentados oficialmente identificada pela perícia, ontem, em Bruxelas. O ritual, doloroso para as famílias, mas também para as equipes de legistas, avançou e permitiu, enfim, que os mortos nos ataques de Zaventem e Maelbeek tenham um nome, um rosto e uma história de vida. O balanço provisório do Ministério Público Federal indica que 31 pessoas morreram, além dos 270 feridos.

Segundo o ministro das Relações Exteriores da Bélgica, Didier Reynders, entre mortos e feridos há pessoas de 40 nacionalidades diferentes – entre elas 4 brasileiros, que receberam atendimento e foram liberados por ferimentos leves.

Há 21 portugueses, 10 franceses, 10 americanos, 9 espanhóis, 4 romenos e 2 húngaros. Cinco britânicos, incluindo David Dixon, ainda desaparecido, estão na lista.

“Há de fato muitos estrangeiros”, confirmou o porta-voz da Polícia Federal da Bélgica, Michael Jonniaux. Isso ocorre porque Bruxelas é, em razão das sedes de instituições da União Europeia, uma das cidades com maior densidade de estrangeiros do mundo. 

Essa situação também dificulta o trabalho dos médicos legistas que ontem tentavam acelerar a identificação dos mortos e feridos em estado grave, contando com a colaboração de parentes. Foi dessa forma que Fernando Tapia obteve informações sobre sua irmã, Adelma, morta no aeroporto de Zaventem, após seis anos vivendo na Bélgica.

“Ela estava acompanhada de seu marido e suas duas filhas, uma delas ferida pelos destroços”, contou Fernando.

Ontem, as manifestações de solidariedade continuaram em Bruxelas. Ao meio-dia, um minuto de silêncio foi realizado em todo o país.

Na Praça da Bolsa, no centro da cidade, onde um memorial foi improvisado na calçada, milhares de pessoas se concentraram para a homenagem. O silêncio foi quebrado pelo choro de pessoas que não contiveram a emoção pelas vítimas do terrorismo.

Uma delas foi Leila Nabad, de 26 anos, “belga e muçulmana” de origem marroquina. “Sinto o que todo mundo deve estar sentindo: um desgosto, um ódio em relação às pessoas que cometeram esses atentados. Tento não odiar, mas para mim a guerra é feita com soldados. Não se mata pessoas dessa forma – gente que vai ao trabalho, que leva seus filhos à escola, que faz compras”, diz a jovem. “Imagine que algumas pessoas deixaram suas casas e não voltarão nunca mais. Não se pode fazer isso.”

Para ela, os jihadistas do grupo terrorista Estado Islâmico são tudo, menos verdadeiros muçulmanos. “Em nome de Allah, não. Eles o fazem em nome de suas doutrinas, não em nome de Allah”, declarou.

De acordo com Mehdi Green, produtor cultural, todos em Bruxelas conhecem direta ou indiretamente pessoas atingidas pelos atentados. “Estamos chocados”, disse. “Sabíamos que poderia acontecer. Havia uma pressão muito pesada sobre Bruxelas, já que estávamos em alerta 4 (o mais elevado) desde 13 de novembro até janeiro.”

Na opinião dele, é hora de os belgas e os estrangeiros que vivem no país demonstrarem sua solidariedade às vítimas e sua repulsa ao terrorismo. “E mostrar que estamos unidos”, completou. “As diferentes comunidades estão reunidas para mostrar que uma cidade como Bruxelas, simbólica, capital da União Europeia, está unida para defender os valores democráticos.”

Além da jornada de homenagens, a capital viveu ontem mais um dia de mobilização das forças de ordem. Várias regiões de Bruxelas tiveram cerco policial, em especial o “distrito europeu”, onde ficam os prédios sede da União Europeia.

O retorno à normalidade também é lento. O aeroporto de Zaventem continua fechado, e voos internacionais e nacionais são transferidos para outras capitais europeias ou aeroportos regionais. As linhas de trem em direção à França, à Holanda, à Alemanha e à Grã-Bretanha retomam aos poucos, e a rede de metrô só volta a funcionar hoje.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.