Elite branca criou ação afirmativa

A grande arma do Congresso Nacional Africano (CNA) para combater a desigualdade racial na África do Sul é a política de ação afirmativa conhecida como Black Economic Empowerment (BEE). Segundo o economista Moeletsi Mbeki, no entanto, a ideia não surgiu dos negros, mas da elite branca, quando percebeu que o apartheid estava com os dias contados.

, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2010 | 00h00

Moeletsi, que é irmão do ex-presidente Thabo Mbeki e diretor do Instituto de Relações Internacionais da África do Sul, afirma que o medo das nacionalizações, que poderiam ser feitas pelo futuro governo negro, como ocorreu no Zimbábue, levou às negociações secretas entre o CNA e os ricaços brancos, no início dos anos 90.

Basicamente, a ideia era trazer para a direção das maiores empresas sul-africanas alguns poucos negros, de preferência ligados ao CNA. Ao transformá-los em acionistas, o BEE criou uma classe de novos-ricos, negros milionários, que passaram a lutar pelos mesmos interesses das grandes holdings do país. Assim, surgiu a fortuna de Cyril Ramaphosa, Tokyo Sexwale e Patrice Motsepe, três dos homens mais ricos da África do Sul.

A lógica do BEE é simples: toda empresa é incentivada a empregar negros ou a vender parte de suas ações para eles. Cada cota preenchida ou ação vendida, a empresa recebe uma nota do governo. Quanto maior a nota, mais licitações públicas a firma ganha. "A maior crítica ao BEE é que ele beneficiou apenas uma minoria de negros, quase todos figurões do CNA", diz Mbeki.

Outra falha do BEE é ter tentado deturpar a lógica do mercado. Cerca de 40% das vagas nas universidades do país são ocupadas por brancos, que têm direito a uma cota de 10% a 15% em cargos de gerência em empresas do país. O Instituto Sul-Africano de Relações Raciais, principal centro de estudos étnicos da África do Sul, considera essa discrepância um "absurdo".

"Da forma como vem sendo implementado, o BEE prejudicou boa parte dos negros, que perderam a autoconfiança e o espírito empreendedor", afirma John Kane-Berman, diretor do instituto.

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