Saul Martinez/Bloomberg
Saul Martinez/Bloomberg

Elite global busca brecha nos países para tentar furar fila da vacina

Enquanto nações lutam por imunizantes e distribuem escassas doses entre profissionais de saúde e membros do grupo de risco, milhares de pessoas se deslocam – e pagam caro – por doses

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2021 | 04h00

Ao anunciar que pretende vacinar turistas que visitarem o país, Cuba pode estar abrindo mais uma janela para uma elite global disposta a pagar caro para furar a fila da imunização contra a covid-19. Na quarta-feira, 3, o diretor do Instituto Finlay de Havana, fabricante da vacina cubana ‘Soberana 2’, afirmou que “se quiserem”, estrangeiros poderão receber doses quando passarem pela ilha.

A declaração de Vicente Veréz faz parte de um vídeo divulgado pela emissora latina Telesur. Na peça, lançada em inglês e espanhol, o diretor do Instituto Finlay promete 100 milhões de doses do imunizante cubano – o país tem aproximadamente 11, 3 milhões de habitantes. “Praias, Caribe, mojito e vacinas, tudo em um mesmo lugar”, diz uma inscrição ao final do vídeo. “O que você acha dessa oferta? Você viajaria a Cuba para se vacinar?”.

Enquanto países lutam entre si para garantir o maior número possível de vacinas e distribuem as escassas doses entre profissionais de saúde e membros de grupos de risco, uma pequena elite com tempo e dinheiro vê no turismo uma chance de contornar as regras. A movimentação vem levantando questões éticas, uma vez que muitas pessoas não têm dinheiro, ou mesmo saúde, suficiente para viajar em busca da imunização.

No dia 3, a imprensa britânica divulgou o caso envolvendo os Emirados Árabes Unidos, que supostamente estariam oferecendo doses da vacina Sinopharm para atrair turistas ao país. 

O esquema passaria por ao menos um grupo exclusivo de Londres, o Knightsbridge Circle, que afirmou ao jornal britânico The Guardian intermediar o serviço. Prestigiado serviço de concierge de luxo, o grupo ganhou adesão de milhares de novos membros no último mês, quando alegou que poderia levar pessoas com 65 anos ou mais para os Emirados para tomar a vacina da Pfizer.

De acordo com o The Telegraph, a viagem daria direito não apenas à imunização como férias de quatro semanas com voos na primeira classe e hospedagem em hotéis cinco estrelas com vista para o mar. O preço? 25 mil libras (aproximadamente R$ 175 mil) por um ano de filiação ao clube e 10 mil libras (aproximadamente R$ 74 mil), fora despesas, que seriam pagas à parte, para o pacote de três semanas que incluiria a vacina.

Esta pode ser a primeira vez que um país usa oficialmente seus suprimentos de vacina para atrair turistas estrangeiros. Mas mesmo quando não há incentivo oficial de um governo local, milhares de pessoas têm tentado o caminho por conta própria. 

Nos Estados Unidos,  a movimentação parece ser principalmente interna. A Bloomberg relata procura por cidades como Miami, Nova York, New Jersey e Connecticut. Em alguns Estados, não é necessário apresentar comprovante de residência para a vacinação.

Com uma política de vacinação ampla – que incluía imunização de qualquer pessoa acima de 65 anos e não exigia comprovante de residência – a Flórida se tornou um dos destinos mais populares para o “turismo de vacinação”. O Wall Street Journal reportou que canadenses, por exemplo, chegaram a desembolsar US$ 80 mil para fretar aviões, tomar a dose da vacina e voltar para casa no mesmo dia. Mais de 37 mil pessoas sem residência na Flórida receberam a vacina no Estado.

Foi o caso da famosa advogada argentina Ana Rosenfeld, que visitou a família em Miami e tomou a vacina em uma cidade nos arredores de Tampa. No fim de janeiro, o Estado passou a exigir comprovante de residência para a imunização.

O professor de saúde pública da Universidade do Sul da Flórida, Jay Wolfson, disse ao jornal britânico The Guardian que parte da culpa pela qual pessoas do Brasil – e de outros países e cidades americanas – estiveram no Estado para tentar conseguir vacinação antecipada foi a propaganda de agências internacionais de viagens.

Recentemente, um caso no Canadá tomou grandes proporções. Um empresário bilionário, Rodney Baker, viajou com sua mulher, Ekaterina, até uma comunidade indígena para tomar a vacina.

No Canadá, as comunidades indígenas são um dos grupos prioritários para imunização – principalmente porque são afetadas de forma desproporcional pelo novo coronavírus. 

Aproveitando-se disso, os Bakers fretaram um avião da cidade de Whitehorse, em Yukon, para Beaver Creek, que tem cerca de 125 residentes, e fingiram ser funcionários de um motel local. Eles não respeitaram a quarentena de 14 dias para entrar em Beaver Creek, onde tomaram a vacina. Agora, respondem a acusações sob a Lei de Medidas de Emergência Civil (CEMA) de Yukon, de acordo com documentos judiciais.

Algumas agências de turismo também têm buscado aproveitar a oportunidade. Antes mesmo dos EUA iniciarem sua campanha de vacinação, uma agência de viagens indiana chamada Gem Tours & Travels anunciou que estava registrando clientes para um pacote de quatro dias em Nova York que incluiria a vacina contra o coronavírus. Outra companhia indiana, a Zenith Holidays, de Calcutá, também tinha um programa de registro de clientes para pacotes de vacinação. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.