Zach Gibson / AFP
Zach Gibson / AFP

Elizabeth Warren, estrela democrata americana em ascensão

Ex-professora de direito, senadora já foi republicana e superou caso de assédio sexual para atingir o auge de sua escalada política

Holly Bailey / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2019 | 08h00

HOUSTON, EUA - Elizabeth Warren é senadora pelo Estado de Massachusetts. Representante da ala mais progressista do Partido Democrata, Warren tornou-se favorita a obter a vaga de candidata do partido nas eleições presidenciais de 2020. Nas últimas semanas, ela superou o ex-vice-presidente Joe Biden em Estados cruciais como Iowa e New Hampshire, arrecadou US$ 25 milhões em doações de campanha e vem arrastando multidões a seus comícios. 

Ela não pisava no câmpus da Universidade de Houston havia quase 15 anos, desde que deixou seu primeiro emprego como professora em tempo integral. Mas, em uma manhã de setembro de 1997, Warren, na época uma já celebrada professora de direito de Harvard, voltou para homenagear um homem que havia desempenhado um papel pequeno, mas não insignificante, em sua carreira.

Os cinco anos que Warren passou no Texas foram os mais transformadores de sua vida. Ela se separou de um marido que não lidava bem com a ambição dela, especializou-se em leis de falências de consumidores e venceu seu medo de se apresentar em público, desenvolvendo o estilo de falar que fez dela um símbolo. Houston é onde Liz Warren se tornou Elizabeth Warren.

Ela foi convidada a homenagear Eugene Smith, professor de direito da Universidade de Houston, que, como chefe do comitê de contratação de professores, em 1978, havia defendido sua admissão. Smith, que morreu de complicações da poliomielite contraída quando era criança, havia solicitado especificamente que Warren falasse em seu funeral. O que ela disse na capela do câmpus surpreendeu seus ex-colegas.

Com um sorriso no rosto e humor na voz, Warren descreveu como Smith a assediara. Duas décadas depois, ela recontaria a história em uma entrevista no programa Meet the Press, em 2017, apresentando o episódio como sua própria experiência #MeToo com assédio sexual.

De acordo com registros divulgados pela campanha de Warren, seu salário naquele primeiro ano em Houston foi de US$ 20.500 anuais. Com seu corte de cabelo na altura do queixo, semelhante ao penteado que usa agora, ela parecia ter menos de 29 anos. “Eu era constantemente lembrada de que não parecia uma verdadeira professora de direito”, disse a senadora.

Seus colegas frequentemente a confundiam com secretária, enfermeira da escola ou até uma aluna perdida quando a viam vagando pelos escritórios da faculdade. Se Warren se considerava uma pioneira para mulheres da área do direito, ela nunca o reconheceu. Sua mãe há muito a advertia, ela disse, para não se tornar “uma daquelas mulheres malucas que roubam livros”. E, de acordo com aqueles que a conheciam na época, Warren, então republicana, não defendia o feminismo.

Estilo

Michael Olivas, professor de direito da Universidade de Houston, que foi contratado depois de Warren, lembrou-se de ter participado de suas aulas e ficar atordoado com o quanto ela era boa. “Ela ainda não era Elizabeth Warren, mas era Elizabeth Warren”, disse Olivas.

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Muitos de seus alunos reconhecem as mesmas técnicas e estilo de falar no trabalho durante a campanha. Até os braços erguidos são familiares. “É o mesmo quando você a vê na televisão e ela tenta explicar algo e diz: ‘Veja, é assim’”, disse Rita Lucido, advogada de direito da família de Houston que teve aulas com Warren. 

Na época, Elizabeth era mais jovem e menos rabugenta que os homens da faculdade. Ela pintou uma parede em seu escritório de um verde brilhante e pendurou um grande balanço de vime na varanda, herdado de sua avó, onde ela se sentava para preparar suas aulas.

Assédio

Warren adorava seu trabalho. Para mantê-lo, ela percebeu que teria de criar um bom relacionamento com Smith e, ao mesmo tempo, se esquivar do que descreveu como um comportamento cada vez mais “inadequado” da parte dele. Warren pensou que o controlaria até aquele dia, no início de 1979, quando ocorreu o assédio.

Ela afirma que pensou em dar um soco na cara do professor, mas levou em consideração as avaliações dele, a influência de Smith com o reitor e o fato de a escola ainda não ter decidido se seu contrato seria renovado. “Se Gene quisesse me afundar, ele poderia”, disse. “E assim, quando ele me perseguiu pelo escritório, eu não tinha tanto medo dele fisicamente, mas temia o que ele poderia tirar de mim.”

Warren sabia instintivamente que o silêncio era sua única opção. Enquanto tentava se manter no emprego, sua vida em casa desmoronava. Ela tentava equilibrar as pressões de ser uma professora sob intenso escrutínio com o fato de ser esposa e mãe. E ela estava fracassando. “Meu mundo foi esticado até o ponto de ruptura”, disse.

Problemas familiares

Na ocasião, ela preparava o café da manhã para o marido, Jim, e seus dois filhos, Alex e Amelia, e depois voltava para a escola. “Cuidar das crianças quase me derrubou”, diz Warren, até que sua tia Bess Reed Veneck veio de Oklahoma para ajudar.

A tia não conseguiu consertar o que havia de errado no casamento. Segundo Warren, ela e Jim nunca brigaram. Ele apenas olhava para ela, com cara de poucos amigos, quando o jantar estava atrasado ou quando ela passava a noite toda corrigindo provas.

“Acho que nós dois ficamos chocados com o que acabei me tornando, dez anos depois de casada”, disse Warren. “Ele pensou que eu seria outra pessoa e, sinceramente, eu meio que presumi isso também. Continuei mudando e crescendo quase à revelia de mim mesma.”

Para Warren, lecionar abriu um novo mundo. Era impossível colocar suas ambições de volta em uma caixa e fechá-la, até mesmo para salvar seu casamento. “Eu queria muito o trabalho”, disse. “Queria ser uma boa mãe, boa esposa, mas não consegui tudo isso.”

Uma noite, como Warren conta em seu livro de memórias A Fighting Chance (“Uma chance de lutar”), ela perguntou a Jim se ele queria o divórcio. “Sim”, ele respondeu. Ela ficou chocada, mas ele não.

Novo começo

Sua família cuidou das crianças naquele verão, quando Warren foi para a Flórida para participar de um retiro sobre leis e economia. Um dos outros participantes era Bruce Mann, professor e historiador da Universidade de Connecticut. Foi atração instantânea. Não está claro quando eles se tornaram oficialmente um casal, mas Warren conta que o visitou logo depois em Connecticut. E ele foi vê-la em Houston.

Se Jim lutava contra a ambição de Warren, Mann a acolheu. Os dois se casaram em julho de 1980, logo após o aniversário de 31 anos de Warren. Mann desistiu de seu emprego e se mudou para Houston, onde a UH lhe concedeu um contrato de ensino de um ano. 

Ela foi nomeada reitora assistente do centro de direito. Mas, em 1983, arrumou as malas e levou a família para Austin, também no Texas, para dar aulas na universidade local. 

Em julho, Warren passava pelos corredores da UH, lugar onde tudo começou. Ela apontou seu antigo escritório, as salas de aula onde ensinava. “Esta é uma volta para casa”, disse mais tarde a uma multidão de mais de 2 mil pessoas que enfrentaram fila para ouvi-la. / Tradução de Claudia Bozzo

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