Elo une atirador de Toulouse a rede terrorista

Mohamed Merah, autor de sete homicídios na França em março, tinha ligações com grupos de pelo menos 20 países

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2012 | 03h09

Uma reportagem publicada na edição de hoje do jornal Le Monde, com base em documentos secretos entregues à Justiça, mostra que Mohamed Merah, autor de sete homicídios nas cidades de Toulouse e Montauban em março, não era um "lobo solitário", como apregoado pelos serviços secretos da França. Merah tinha contatos regulares com interlocutores de pelo menos 20 países, incluindo Egito, Arábia Saudita, Emirados Árabes, Turquia, Casaquistão e Rússia.

Essas ligações vêm sendo investigadas porque se desconfia dos vínculos de Merah com organizações terroristas e também com os serviços secretos franceses. Conforme os documentos obtidos pela Justiça, Merah não tinha telefone em seu nome, mas usava um número registrado por sua mãe. Um registro feito em 26 de abril de 2011 por agentes de inteligência da França indicou que o jovem havia feito 1.863 ligações entre 1o de setembro de 2010 e 20 de fevereiro de 2011. Destas, pelo menos 186 ligações foram para pessoas de fora da França, distribuídas em 20 países. De acordo com o jornal, a maior parte das ligações foi feita para o Egito, onde vivia parte de sua família.

Os documentos confirmam que Merah era investigado desde 2009, e seu irmão, Abdelkader Merah, desde 2008, ambos por suspeitas de envolvimento com terrorismo internacional. Uma das notas secretas obtidas pela Justiça diz: "Vigilância no domicílio de Mohamed Merah, 17, Rue Sergent-Vigné, apartamento número 2. Venezianas continuam fechadas". Em outra nota, os agentes descrevem: "O comportamento prudente e suspeito de Mohamed Merah influencia sua família". Os registros também confirmam a aproximação do jovem de uma corrente islâmica salafista radical de Toulouse.

As informações desmentem a versão oficial, defendida por Bernard Squarcini, ex-diretor da Direção-Geral de Segurança Exterior (DGSE), o serviço secreto exterior da França. Em março, ele afirmou que Merah agira sozinho e "radicalizou-se na prisão, sozinho, lendo o Alcorão".

As notas demonstram falhas dos serviços de segurança, incapazes de impedir ataques como o perpetrado contra uma escola judia de Toulouse, quando morreram três crianças e um professor. Além disso, reforçam as dúvidas do caso, que envolve a suposta ligação entre o jovem assassino e o serviço secreto francês, para o qual ele trabalharia como informante.

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