AFP PHOTO / Oficina de Asuntos Historicos del Consejo de Estado
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Em 1962, o centro de uma crise nuclear

URSS instalou mísseis em Cuba e avião americano de reconhecimento foi abatido, mas Moscou recuou após diálogo com Kennedy

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2016 | 15h59

O mundo esteve perto de uma guerra atômica em outubro de 1962, quando chegou ao auge a crise entre os EUA e a União Soviética, por causa da instalação de uma bateria de mísseis em Cuba. Eram mísseis de alcance médio que, armados com ogivas nucleares, poderiam alcançar o território americano, em resposta a um eventual ataque ordenado por Washington.

Só não houve guerra porque o então presidente dos EUA, John Kennedy, deu um ultimato ao primeiro-ministro Nikita Kruchev, quando uma frota de navios soviéticos rumava para o Caribe. Ela ia dar cobertura a um contingente de 20 mil homens que Moscou havia deslocado para a ilha, em apoio à Revolução Cubana. Os soviéticos estavam dando ajuda militar a Havana desde o ano anterior, quando Fidel Castro pediu socorro após a fracassada invasão da Baía dos Porcos.

“Tomamos conhecimento dos planos que estavam sendo elaborados e tivemos certeza desse perigo”, disse o líder revolucionário mais de 20 anos depois, numa das entrevistas que deu ao jornalista Tad Szulc, seu biógrafo.

O comandante acreditava que, irritado com a derrota, em Playa Girón, dos dissidentes treinados pela CIA, o governo dos Estados Unidos não desistiria da ideia de usar a força para liquidar a revolução cubana.

Escalada. O dia mais crítico, na versão de Fidel, foi 27 de outubro, não só porque os foguetes SAM (mísseis terra-ar) já haviam abatido um avião de reconhecimento U2 da Força Aérea dos Estados Unidos que sobrevoava Cuba em grande altitude, na província de Oriente, mas também porque os cubanos tentavam derrubar aparelhos americanos que voavam baixo.

“Eu não sei o que teria acontecido se os U2 sobrevoassem a ilha outras vezes, mas tenho absoluta certeza de que, se os voos de baixa altitude fossem reiniciados, nós teríamos derrubado um, dois ou três deles, mas não sei se isso teria levado a uma guerra nuclear”, observou Fidel em 1986. Os soviéticos operavam os mísseis, enquanto os cubanos disparavam as baterias antiaéreas.

Os aviões sumiram no dia 28, porque Moscou e Washington chegaram a um acordo, mas reapareceram em seguida, voando sempre em baixas altitudes. Fidel advertiu os russos de que, apesar do acordo, as baterias cubanas continuariam a atirar nos americanos.

Fidel jamais ocultou sua irritação com a União Soviética pelo fato de Moscou ter acertado a retirada dos mísseis sem consultá-lo. “Nós ficamos irritados durante muito tempo”, disse o líder cubano, embora, conforme acrescentou, tenha entendido o motivo de Kruchev - a inferioridade nuclear dos soviéticos em relação aos americanos.

“Naquela época, eu ignorava quantas armas nucleares os soviéticos e os americanos tinham”, revelou o comandante cubano a Szulc. “Eu ignorava essa informação e não me ocorreu perguntar aos soviéticos, pois me pareceu que não tinha o direito de perguntar”, acrescentou.

Cláusula secreta. Fidel Castro não sabia também que o acordo era mais amplo. O entendimento entre John Kennedy e Nikita Kruchev incluía, numa cláusula secreta, o compromisso de os americanos retirarem os mísseis nucleares Júpiter instalados na Turquia em troca do repatriamento dos mísseis soviéticos de Cuba.

Resolvida a crise, os cubanos ficaram com as baterias SAM, com as quais poderiam derrubar aparelhos U2 ou qualquer avião-espião que voltasse a sobrevoar seu território. Os Estados Unidos fecharam os olhos para isso, porque se tratava de armas defensivas. Os soviéticos deixaram também uma brigada de 4 mil a 5 mil soldados na ilha, após a retirada dos mísseis.

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