Em 2001, gafes ao vivo e âncoras atônitos

Na CNN, apresentador disse que erro de navegação causou choque de aviões

Daniel Bramatti, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2011 | 00h00

Eram 9h06 do dia 11 de setembro e o apresentador Steve Bartelstein, que naquele momento falava para o mundo pela CNN, não conseguia conceber o óbvio fato de que transmitia ao vivo um ataque terrorista.

"Outro avião de passageiros acaba de atingir o World Trade Center", disse o âncora, atônito. "No intervalo de minutos. Então, naturalmente, você vai refletir, vai especular, vai se perguntar se algum tipo de equipamento de navegação pode ter direcionado dois aviões para o World Trade Center ao mesmo tempo."

Bartelstein nem sequer viu o avião atingir a segunda torre, apesar de sua emissora ter mostrado a imagem ao vivo, e demorou quase quatro minutos para confirmar que havia uma segunda aeronave envolvida. Em outras emissoras, o nível de confusão não era menor.

Na CBS, o segundo choque foi inteiramente narrado não pelo âncora que comandava a transmissão, mas por uma espectadora que falava ao vivo, pelo telefone. "Outro avião acaba de bater! Isso definitivamente parece ter sido de propósito", disse ela, que assistia a tudo da janela de seu apartamento. Incrédulo, o apresentador Bryant Gumbel contestou. "Por que você diz que foi de propósito?"

Na rede MSNBC, o segundo ataque também foi narrado por uma testemunha, uma produtora da emissora. Ela foi precisa ao descrever o avião como um jato de passageiros de grande porte. Mas acrescentou: "Fico pensando se há algum problema no controle de tráfego aéreo."

Em meio à onda de informações desencontradas, a ABC foi exceção. Charles Gibson e Diane Sawyer, que naquela manhã apresentavam o programa de variedades Good Morning America, assumiram o comando do boletim extraordinário afirmando, logo de início, que se tratava "de um acidente ou de um ato deliberado". Quando o segundo avião explodiu, Gibson concluiu: "Isso parece um ataque orquestrado."

No quesito agilidade, a CNN venceu e entrou para a história ao exibir as imagens da primeira torre do World Trade Center em chamas às 8h49, apenas três minutos depois do choque e antes de todas as concorrentes.

A transmissão começou com uma pequena gafe - a âncora anunciou que, ao telefone, de Manhattan, estava "Sean Murtagh, um produtor da CNN", e ele a corrigiu: "Sou vice-presidente de finanças da CNN". A seguir, Murtagh disse ter visto "um grande jato comercial de passageiros" se dirigir diretamente para o WTC - outras testemunhas, nas emissoras concorrentes, descreviam o avião como "de pequeno porte". Uma delas chegou a afirmar que um míssil havia atingido o prédio.

A qualidade da cobertura da CNN desabou quando ela entrou em rede com a WABC, emissora local de Nova York, na qual Bartelstein trabalhava. Quando as demais redes já falavam em um ato deliberado, ele ainda se referia ao episódio como um "acidente" e, por duas vezes, citou a hipótese de tudo ter sido provocado por problemas no "sistema de navegação" - seis anos mais tarde, o âncora seria demitido por cochilar durante a cobertura de um incêndio.

Graças a uma compilação de imagens feita pelo site Internet Archive (www.archive.org/details/911), é possível checar, minuto a minuto, como 19 emissoras de televisão retrataram o 11 de setembro de 2001 a partir das 8h daquele dia. "Está tudo calmo no país. Calmo demais", disse um dos apresentadores do Early Show, da CBS, às 8h31. Faltavam 15 minutos para a frase soar absurda.

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