Em 2002, FHC articulou apoio contra tentativa de golpe

Tucano usou diplomacia para tentar recolocar Chávez no poder, contrariando a vontade do governo Bush

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2013 | 02h07

De volta ao Palácio Miraflores após a tentativa de golpe de abril de 2002, o presidente Hugo Chávez escolheu um chefe de Estado em especial para dedicar seu primeiro telefonema de agradecimento: o brasileiro Fernando Henrique Cardoso. O motivo da cortesia era a manobra diplomática liderada pelo Brasil, que naqueles dias de incerteza em Caracas buscou colocar o bloco latino-americano ao lado do venezuelano deposto - e, por tabela, contra os EUA de George W. Bush.

A chamada foi na manhã de um domingo de sol em Brasília, com a capital enfeitada para comemorar o centenário de nascimento de Juscelino Kubitschek. Do outro lado da linha, atendeu um FHC satisfeito com a volta de Chávez ao poder. Passadas as formalidades iniciais, o presidente brasileiro perguntou ao venezuelano se ele ouvira falar em JK. Chávez respondeu que não.

"Juscelino foi um grande presidente do Brasil, que passou por duas tentativas de golpe militar, uma em 1956 e outra em 1959", disse FHC. "Ele foi muito sábio e anistiou os golpistas", emendou. Chávez entendeu o recado. Respondeu que não pretendia punir os revoltosos (nos anos seguintes, porém, todos acabaram perseguidos politicamente).

A quartelada que derrubou brevemente Chávez ocorreu enquanto os países do chamado Grupo do Rio, mecanismo latino-americano de consulta política, reuniam-se na Costa Rica. Era o chanceler Celso Lafer quem estava em San José representando o Brasil e ele foi instruído a buscar, com o máximo de assinaturas que pudesse, uma declaração regional condenando o golpe.

"O continente é democrático e não aceita regimes de força", dissera o presidente tucano, pouco após as primeiras notícias da crise em Caracas, indicando a posição de princípio do Brasil.

Ao final, todos os países do Grupo do Rio firmaram na Costa Rica uma declaração condenando a "interrupção da ordem constitucional" na Venezuela. No mesmo dia, os EUA reconheciam o empresário - e golpista - Pedro Carmona como legítimo presidente venezuelano.

A posição de FHC diante do golpe de 2002 foi reflexo da boa relação que ele manteve com Chávez enquanto os dois conviveram nas cadeiras do poder sul-americano. O líder bolivariano foi agraciado em 2000 com um jantar de honra em Brasília. No ano seguinte, os dois participaram de um encontro em Cuba. Na foto do evento, apareceram sorrindo ao lado de Fidel Castro.

Hoje, o ex-chanceler Celso Lafer relativiza a relação entre os presidentes. "Era um outro Chávez", afirma. "A radicalização na Venezuela veio depois."

Um mês antes das eleições presidenciais brasileiras de 2002, Chávez declarou enquanto embarcava para a cúpula da Rio+10, na África do Sul: "A esquerda vai vencer no Brasil com o meu bom amigo Lula. Ele é um sujeito incrível, trabalhador e honesto".

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