Em 2011, Lula fez 'pedido especial' pela adesão de Caracas

Bastidores: Roberto Simon

O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2012 | 03h04

No dia 23 de março do ano passado, o já ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi convidado por Fernando Lugo para ser o orador principal de um evento sobre educação na capital paraguaia. De improviso, Lula emocionou a plateia, que incluía várias autoridades, ao relatar sua própria história: o mais velho de oito filhos, o primeiro da família a fazer um curso profissionalizante e a ganhar mais do que um salário mínimo. "E o único dos oito que se tornou presidente", disse, ganhando a gargalhada do público. Ao final, foi aplaudido de pé.

Encerrado o evento, alguns políticos paraguaios foram chamados para uma sala reservada a pedido do ex-presidente brasileiro. "Estranhamos. Por que alguém da importância de Lula queria conversar especialmente conosco?", relembra um dos "convocados".

Na sala os aguardava Lula, o assessor para Assuntos Internacionais do Planalto, Marco Aurélio Garcia, e o embaixador do Brasil no Paraguai, Eduardo dos Santos. O assunto não era bem educação. Todos se sentaram e Lula puxou o assunto. "Quero que vocês reconsiderem a entrada da Venezuela no Mercosul", disse aos políticos paraguaios, todos integrantes de partidos que se opunham no Senado à adesão venezuelana. "Sei que o problema para vocês é o presidente Hugo Chávez, mas quem vai entrar no bloco são os venezuelanos", continuou o ex-presidente.

O interlocutor paraguaio que sentava logo ao lado de Lula recorreu a um exemplo para ilustrar sua oposição: a crise política em Honduras depois do golpe contra o presidente Manuel Zelaya. O governo brasileiro não normalizou os laços com Tegucigalpa, justificou, porque se opõe ao presidente eleito após o golpe, Porfírio "Pepe" Lobo. "E não porque tem algo contra o honesto povo hondurenho", emendou.

Lula sorriu, deu três tapinhas na perna do paraguaio, levantou-se da cadeira e deixou a sala em silêncio. Um dos participantes da reunião garante que o ex-presidente viera ao Paraguai a convite de Lugo "especialmente para falar de Venezuela".

"O Congresso do Paraguai converteu-se no último fronte da América do Sul contra Chávez", explicou um deputado que integra o Partido Colorado. Além dessa legenda, os liberais, o Partido Pátria Querida (PPQ) e a União Nacional dos Cidadãos Éticos (Unace) são totalmente contra a entrada da Venezuela no Mercosul. Juntos, esses partidos representam a esmagadora maioria do Legislativo de Assunção.

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