EFE/EPA/STRINGER
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Em 5 anos, ir da África à UE ficou 90% mais barato

Há cinco anos, uma vaga em uma navio precário chegava a custar € 2 mil; hoje, em botes plásticos e infláveis, o preço da travessia chega a menos de € 200

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2017 | 05h00

PARIS - O preço de uma vaga em um bote inflável despencou no mercado do tráfico de seres humanos. Há cinco anos, quando a travessia era feita em barcos de pesca, a partir do litoral da Tunísia ou da Líbia, uma vaga em uma navio precário chegava a custar € 2 mil. Hoje, em botes plásticos e infláveis, o preço da travessia chega a menos de € 200 – uma queda de 90% –, segundo os imigrantes que chegaram há menos tempo da costa africana.

Esse valor, acessível até mesmo a jovens adolescentes, foi o total pago por Ismail Mohamed, de 16 anos. Nascido no Chade, está há quase dois meses vivendo na rua em Paris, em frente ao centro de acolhimento criado pela prefeitura em Porte de la Chapelle. Antes, ele passou pela Líbia, onde ficou quase três meses à espera de uma oportunidade para atravessar o Mediterrâneo, pela Itália e, enfim, chegar à França. 

“Estou há cinco meses na estrada. Para atravessar o Mediterrâneo, levamos dois dias e paguei em dinares líbios o equivalente a € 200, mais ou menos”, conta o adolescente, que não tem família, só amigos imigrantes espalhados em Paris, onde deseja permanecer.

Outro a pagar o mesmo valor pela travessia foi Said Mohamed, de 16 anos, mais um imigrante do Chade. Também sem o consentimento dos pais, Mohamed deixou seu país para tentar se fixar na França. Ele ainda não tem noção dos direitos que tem como menor isolado na Europa. “Nenhum de nós pediu nenhum tipo de documento ainda”, admite.

O isolamento dos adolescentes e a situação de abandono em que se encontram fazem parte de um contexto de desconfiança na relação entre imigrantes e representantes de organizações não governamentais, de um lado, e autoridades públicas, não só na França, mas em toda a Europa, de outro. 

“Há um sistema que garante a proteção de jovens, mas ele não funciona porque tudo o que precisa ser feito antes do acolhimento, como a identificação, a tomada a cargo, a assistência psicológica, tudo é visto com muita desconfiança”, reconhece François Duchamp, encarregado da Unicef na França. 

Para Duchamp, a situação das crianças e adolescentes abandonados é uma crise à parte dentro do que ele chama de “crise de acolhimento” de imigrantes na Europa. “A primeira urgência é acolhê-los dignamente”, afirma o ativista. “Precisamos também identificar os membros de suas famílias, garantindo o abrigo pelo menos até o caso ser analisado.”

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