REUTERS/Andrew Nelles
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Em 8 anos, poucos sinais de mudança em regiões vulneráveis

Área de Chicago onde Obama atuou nos anos 80 continua a sofrer com efeitos do colapso das indústrias locais

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Chicago, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2017 | 05h00

Enquanto dirige pelas ruas do extremo sul de Chicago onde vive desde a infância, Daniel Vukobratovich aponta para os imensos terrenos vazios que antes eram ocupados pelas indústrias siderúrgicas que impulsionaram a economia da cidade durante grande parte do século 20. Descendentes de imigrantes sérvios, todos os homens adultos da família trabalhavam nas fornalhas que alimentavam a produção de aço dos Estados Unidos.

Diante da crescente concorrência internacional, quase todas fecharam nos anos 70 e 80, deixando um rastro de milhares de desempregados, contaminação, resíduos industriais, elevada incidência de câncer e aumento da criminalidade. 

Mas, para Vukobratovich, o efeito mais nefasto atingiu a alma da região. “Havia um sentimento de comunidade que se perdeu. O trabalho nas fábricas fortalecia os laços entre as pessoas e as famílias.” Ele foi operário da US Steel, que era uma das maiores produtoras de aço do mundo. Seu pai, seu sogro e seu irmão eram empregados de fábricas vizinhas. 

“Tudo o que eu conhecia mudou”, afirma o ex-metalúrgico. Aos 59 anos, ele continua a viver com a família no sul de Chicago, vizinho de Altgeld Gardens, o conjunto de casas populares onde o presidente Barack Obama trabalhou como organizador comunitário em meados dos anos 80. Ele mobilizou os moradores locais – na época, todos negros – em uma campanha pela retirada de produtos tóxicos das pilhas de resíduos industriais que se acumulavam nas imediações dos edifícios.

A iniciativa teve sucesso parcial, mas os habitantes de Altgeld Gardens continuam a enfrentar os efeitos da poluição. “No verão nós não podemos abrir as janelas, pois o cheiro é insuportável, dia e noite”, lamenta Henry Clark, de 69 anos, que vive no local desde 1953. Altgeld Gardens não tem supermercados, restaurantes, cafés ou lanchonetes.

Clark disse que não votou nas eleições presidenciais de novembro por não acreditar “no sistema”. Em sua opinião, o governo do primeiro presidente negro dos Estados Unidos não alterou as relações raciais no país. “Nós nunca fomos vistos como americanos. Nós somos apenas residentes do país, não somos cidadãos.”

Vukobratovich votou na democrata Hillary Clinton, que acabou derrotada pelo magnata Donald Trump. Depois do fechamento das siderúrgicas na cidade, ele tentou a sorte com uma loja de roupas e um bar e trabalhou como motorista de caminhão. Há 15 anos, ele é gerente de vendas de uma distribuidora de bebidas.

John Hagedorn, professor da Universidade de Illinois em Chicago, disse que o sul da cidade tem um perfil de criminalidade semelhante ao de outras áreas urbanas do “cinturão da ferrugem” que sofreram com a desindustrialização do fim do século passado. “As cidades costeiras, como Nova York e Los Angeles, são mais dinâmicas e criam oportunidades. O que vemos nas comunidades negras daqui é algo muito mais parecido com a realidade de Detroit.”

 

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