'Em alguns locais do México,fazer jornalismo é impossível'

ENTREVISTA

Talita Eredia, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2010 | 00h00

Carlos Lauría, Coordenador do programa das Américas do Comitê de Proteção aos Jornalistas (CPJ)

Os cartéis mexicanos buscam mais do que a conquista de mercado e território: querem também controlar o fluxo da informação. Carlos Lauría, coordenador do programa das Américas do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), acredita que as quadrilhas interferem diretamente na agenda informativa mexicana. Em entrevista ao Estado, por telefone, Lauría diz que a autocensura, que se tornou prática comum em muitos veículos da imprensa mexicana, é vista como a única garantia de segurança para os jornalistas.

Como podemos interpretar o editorial de "El Diario", que qualifica os grupos criminosos de "autoridades de facto"?

O editorial do jornal de Ciudad Juárez é evidentemente um texto provocativo, mas que lamentavelmente reflete a realidade, diante de um governo que se vê incapaz de responder à violência e proteger o direito humano básico de liberdade de expressão. É claro que isso promove a autocensura

E como os leitores veem essa autocensura?

O texto do jornal mexicano é claramente uma mensagem para seu público, de que ele não pode publicar tudo o que gostaria, uma vez que se vê intimidado e ameaçado. El Diario deixa claro que estão tirando o direito do cidadão de ter acesso à informação. Os jornalistas não só de Ciudad Juárez, mas de todo o país, sentem-se vulneráveis, sem nenhum tipo de garantia para trabalhar. A cidade vive hoje um clima de violência quase anárquica.

Podemos dizer que é praticamente impossível fazer jornalismo no México?

É uma tarefa muito difícil, quase impossível em determinadas regiões do país. Os jornalistas arriscam a vida. É um ofício de altíssimo risco. Muitos foram para o exílio, abandonaram a profissão, mudaram para outras regiões do país, isso além dos que estão desaparecidos. A violência é um golpe duríssimo para a profissão. É um golpe duro para a liberdade de expressão e para a democracia.

E a investigação dos crimes contra jornalistas?

A impunidade no assassinato de jornalistas é muito grande no mundo todo. Pelo menos 85% dos casos estão impunes. No México, porém, o número chega a 90%. Isso se deve à corrupção das autoridades dos Estados, à cumplicidade e a negligência das autoridades com o crime organizado e a falta de recursos. Isso porque, no Mexico, o assassinato é um crime de foro comum, não é um crime federal. A Polícia Federal só assume uma investigação quando o crime é vinculado a grupos organizado ou se for praticado com uma arma do Exército. O problema é que a maior parte dos casos está sob investigação dos Estados, muito mais corruptíveis. Para apurar morte de jornalistas, é preciso ter evidências da ligação com o tráfico. É a lei. Por isso, estamos pedindo a adoção de uma lei federal que permita às autoridades federais investigar diretamente esses casos.

QUEM É

Carlos Lauria, jornalista, nascido em Buenos Aires, é coordenador para as Américas do Comitê de Proteção aos Jornalistas (CPJ). A entidade tem sede em Nova York e monitora a situação da liberdade de imprensa em todo o mundo.

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