BERTRAND GUAY / AFP
BERTRAND GUAY / AFP

Em alta, verdes escolhem ‘ecologista realista’ para prefeitura de Paris

Ecologistas ganham força após bom desempenho em eleição para o Parlamento europeu, principalmente entre os mais jovens, e se tornam a força mais votada da esquerda francesa; eleições municipal no ano que vem torna-se o principal objetivo

Paloma Varón, Especial para o Estado / Paris, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2019 | 04h00

PARIS - O movimento verde francês (EELV, na sigla em francês) aproveitou a onda do surpreendente desempenho na eleição do Parlamento Europeu em 26 de maio para lançar no fim de semana um candidato às eleições municipais de março de 2020.

O partido escolheu no sábado à noite o líder dos verdes no Conselho de Paris, David Belliard, como candidato à prefeitura. Belliard encarna o “ecologista realista” e tem um bom diálogo com a atual prefeita, Anne Hidalgo, do Partido Socialista (PS), candidata a reeleição. O apelido foi dado justamente pelo fato de ele conversar com diferentes grupos.

 

Belliard é vereador pelo 11º distrito de Paris e jornalista de formação. Ele tem 41 anos e ganhou a primária no sábado com 252 votos contra 204 do rival, Julien Bayou. Ao criticar algumas posições da prefeita, ele diz que quer uma cidade  “mais pacífica, menos consumidora de energia”, com a proposta ambiental como carro-chefe.

Na França, a eleição para a Eurocâmara teve participação massiva (50,1%), o declínio da direita tradicional, que pela primeira vez fez menos de 10% em uma eleição, e a boa onda do partido ecológico, que se tornou a terceira força política do país e a primeira da esquerda, com 13,1% dos votos, contra 8,95% em 2014. Com quase 20% dos votos na capital, liderou em 4 dos 20 distritos de Paris - notadamente aqueles que estão a Leste da capital francesa.

Paris é o bastião mais visado pelos ecologistas. Na eleição para o Parlamento Europeu deste ano, os distritos que eram redutos de direita na capital mudaram seu voto para apoiar a lista do partido do presidente Emmanuel Macron e aqueles que tradicionalmente votavam à esquerda preferiram os verdes, notadamente nos 10º, 18º, 19º e 20º distritos, que deram a liderança aos ecologistas.

Daniel Boy, diretor de pesquisa emérito do Centro de Pesquisas Políticas da Sciences Po, um dos mais respeitados centros de estudos sociais e políticos do mundo, explica que não é a primeira vez que os verdes alcançam tamanho êxito na França: “Ele já foram até mais longe em 2009, com 16,28%, mas o que surpreendeu nesta eleição foi que nas vésperas os institutos de pesquisa não davam mais que 9% para os ecologistas”.

Segundo o instituto Ipsos, o perfil dos eleitores que optaram pela Europa Ecologia é de jovens entre 18 e 34 anos. “O sucesso da lista verde, a primeira força à esquerda, vem principalmente de sua pontuação (27%) nos menores de 35 anos, onde chegou em primeiro”, detalha o estudo “Europeias 2019 - Sociologia do eleitorado”, de Brice Teinturier.

Para Boy, é inegável o peso do voto jovem, mas, segundo ele, há um fator ainda mais determinante: o diploma. “Quanto mais escolarizados, maior é a tendência de se preocuparem com a ecologia concreta e de votarem verde”, explica.

Escolhas

A diretora artística Séverine Saby, de 27 anos, costumava votar à direita (Sarkozy) ou centro-direita (Macron), mas, nesta eleição europeia escolheu os verdes. “Estou convencida de que a Europa tem um papel ecológico a desempenhar. Penso que as decisões relativas ao nosso planeta, à nossa consciência ecológica e às mudanças nos nossos hábitos de consumo devem ser levadas a cabo a nível europeu”, diz.

Como muito dos eleitores verdes, Séverine mora no 20º distrito de Paris e nunca tinha votado no movimento ecologista antes. Questionada se votaria de novo nas eleições municipais de março de 2020, ela disse que sim, mas acha difícil fazer o mesmo para as presidenciais.

A posição de Séverine coincide com a análise de Boy, para quem “o voto dos franceses depende do tipo de eleições”. “As eleições europeias são sempre boas para os verdes e uma das principais razões é que as políticas ambientais são, em grande parte, decididas em Bruxelas, como as normas de qualidade do ar, da água, as políticas sobre o uso de automóveis”, explica. 

Ele acrescenta que o tipo de votação nas eleições europeias, com votos proporcionais, favorece os partidos menores, que podem lançar candidaturas sem fazer alianças e mesmo assim conseguir cadeiras no Parlamento Europeu.

Já as eleições presidenciais, majoritárias, dependem muito mais de alianças. Foi por isso que o cabeça de lista dos verdes para estas eleições europeias, Yannick Jadot, desistiu de se candidatar à presidência em 2017 e apoiou o candidato de esquerda, Benoît Hamon, do PS.

Pragmática, a arquiteta Angelina Victorino, de 27 anos, também estreante no voto “ecológico”, disse que o que a convenceu a votar nos verdes desta vez foi ver que eles estavam à frente dos socialistas nas intenções de votos. “Eu geralmente voto no PS, mas desta vez queria votar em quem estivesse mais bem colocado e, claro, também representasse as minhas ideias. Foi o meu primeiro voto neste partido”, conta.

Ela disse que, paras as próximas eleições municipais ela também deve decidir a partir das pesquisas se votará no PS ou nos verdes. Na vida cotidiana, ela pensa no que consume e faz a triagem do lixo, tentando diminuir o desperdício.

Made with Flourish

Na faixa dos 40 anos, o consultor financeiro Maxime Michellat também votou pela primeira vez nos verdes. “Até alguns anos atrás, os ecologistas eram considerados ‘ripongas’ e, portanto, desconectados da realidade econômica. Mas nos últimos anos, muitos cientistas nos alertaram sobre os maus tratos para com o planeta. Se não mudarmos nosso comportamento, as consequências provavelmente serão dramáticas”, diz.

“Além disso, a Europa é um projeto ideológico forte e bonito. Para mim, é importante defender este projeto e seus valores. E a ecologia é um valor que permite uma identificação verdadeira com o projeto europeu”, completa Michallet.

Jadot, de 51 anos, é um velho conhecido dos franceses. Ex-diretor de campanhas do Greenpeace, deixou o ativismo profissional para fazer política partidária em 2009, ano em que os verdes tiveram a mais alta votação nas europeias e quando ele assumiu seu primeiro mandato como eurodeputado. Desde então, ele tem sido reeleito para o Parlamento Europeu.

Jadot fez uma campanha firme em que citou, tanto no seu material impresso como nos debates na TV, o Brasil de Bolsonaro como um antiexemplo do que se deve fazer em matéria de meio ambiente. No debate do canal France 2, estatal, ele citou o desmatamento da Amazônia e o descaso com as políticas ambientais no atual governo brasileiro. 

No material impresso, distribuído nas ruas e enviado às casas dos eleitores pela administração local, Jadot escreve: “Diante de Trump, Putin, Bolsonaro e Xi Jinping, é absolutamente necessário que a Europa construa uma alternativa”.

Depois das eleições, Jadot foi considerado a personalidade política mais popular da França, com 32% de apoio ou simpatia dos franceses, segundo pesquisa do instituto Odoxa divulgada na semana passada. Casado com uma jornalista, o eurodeputado verde está sendo cotado para as eleições presidenciais de 2022.

Boy acredita que os verdes saem fortalecidos para as eleições municipais de 2020 e também para as regionais de 2021, mas considera que os franceses ainda não estão prontos para votar num candidato ecologista para a presidência. “Historicamente, os verdes se dão bem nas europeias, num nível mais amplo, ou, ao contrário, num nível mais local, de cidade, de Departamento.”

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