Michael Reynolds/EFE
Michael Reynolds/EFE

Em ato inédito, Câmara dos EUA afasta republicana que defendeu teorias da conspiração de comissões

Líderes dos partidos tradicionalmente controlam a composição dos painéis e, embora democratas e republicanos tenham ocasionalmente agido para punir os próprios membros, a maioria nunca fez isso contra um legislador do outro partido

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2021 | 21h35

WASHINGTON - A Câmara dos Deputados dos Estados Unidos deu um passo inédito nesta quinta-feira, 4, ao destituir de duas comissões a deputada Marjorie Taylor Greene, da Geórgia, por endossar pedidos de execuções de democratas e espalhar desinformação perigosa e preconceituosa. 

Na ação sem precedentes no Congresso moderno, a Câmara votou 230 a 199 - contra a oposição republicana quase unânime - para remover Greene das comissões de Educação e de Orçamento. A ação retirou efetivamente Greene de sua influência no Congresso, banindo-a de comissões essenciais para o avanço da legislação e supervisão sobre os temas. 

Os líderes dos partidos tradicionalmente controlam a composição dos painéis e, embora democratas e republicanos tenham ocasionalmente agido para punir os próprios membros, retirando-os de suas atribuições, a maioria nunca, nos tempos modernos, fez isso contra um legislador do outro partido.

Os democratas argumentaram que os comentários de Greene - e a recusa dos líderes republicanos em agir contra ela - criaram uma situação insustentável que exigiu uma ação incomum. Em postagens nas redes sociais feitas antes de ser eleita, Greene endossou posts que defendiam a execução de democratas importantes, incluindo a presidente da Câmara, Nancy Pelosi; sugeriu que uma série de ataques a tiros em escolas foi cometida secretamente por atores do governo; e repetidamente se envolveu em teorias de conspiração antissemitas e islamofóbicas.

A votação ocorreu um dia depois que o deputado Kevin McCarthy, o líder republicano, divulgou uma declaração que condenava os comentários anteriores de Greene endossando comportamento violento e teorias de conspiração, mas deixou claro que o partido não pretendia puni-la. Onze republicanos da Câmara votaram a favor da resolução. 

Em uma declaração no plenário da Câmara nesta quinta-feira, Greene, que representa o 14º distrito congressional da Geórgia, lamentou seus comentários anteriores. Ela disse que acreditava que os atentados do 11 de Setembro "aconteceram com certeza" e os ataques a tiros em escolas foram "absolutamente reais", depois de sugerir que aspectos de ambos foram encenados.

“Eu podia acreditar em coisas que não eram verdadeiras e fazia perguntas sobre elas e falava sobre elas, e isso é absolutamente o que me arrependo”, disse Greene, usando uma máscara com a frase “Liberdade de expressão”.

“Quando comecei a encontrar desinformação, mentiras, coisas que não eram verdade nesses posts do QAnon, parei de acreditar”, disse ela, acrescentando que sua revelação veio em 2018. “Qualquer fonte de informação que seja uma mistura de verdade e uma mistura de mentiras é perigoso.”

Ela não se desculpou durante o discurso de cerca de oito minutos, mas disse que seus comentários anteriores eram "palavras do passado" que "não me representam". Ela avisou que os legisladores estavam criando um "grande problema" se optassem por "crucificá-la" por "palavras que disse, e das quais me arrependo, há alguns anos".

Símbolo do extremismo crescente entre a base pró-Trump do Partido Republicano, essa conservadora de 46 anos do Estado da Geórgia é empresária do ramo da construção civil e novata na política. Marjorie Taylor Greene conquistou a cadeira do 14º distrito de seu Estado nas eleições de novembro de 2020. A vitória era esperada – ela estava concorrendo sem oposição em um dos distritos mais conservadores do país –, assim como as derrotas da maioria dos outros candidatos não vinculados ao QAnon.

Em 2018, ela havia afirmado que incêndios florestais na Califórnia foram iniciados por um laser espacial controlado por uma família judia, e apoiou as teorias da conspiração da QAnon de que um “estado profundo” operava contra Donald Trump quando ele era presidente.

A parlamentar ainda apoia as alegações infundadas de Trump de que a eleição foi roubada, zomba dos legisladores por usarem máscaras e tenta evitar a triagem de segurança imposta após a invasão ao Capitólio em 6 de janeiro que deixou cinco mortos. 

Os republicanos do Senado se voltaram contra ela. O líder da minoria Mitch McConnell disse que seus comentários e defesa de teorias da conspiração eram como um “câncer” no partido, enquanto outros republicanos a chamaram de maluca. 

Embora a maioria dos legisladores republicanos tenha ficado horrorizado com sua retórica, alguns argumentaram que os membros do Congresso não deveriam ser punidos por comentários que fizeram antes de serem eleitos e que permitir que um partido (neste caso, os democratas) tome uma ação unilateral contra um legislador de outra parte abriria um precedente perigoso. Outros estão receosos de fazer essa votação após o ex-presidente Donald Trump demonstrar apoio a ela.

Greene enviou um e-mail a seus apoiadores pedindo que “apressem uma doação de emergência” para ajudar a defendê-la. A republicana começou a arrecadar fundos na terça-feira com a alegação de que os democratas a estavam alvejando injustamente por causa de suas crenças, e disse que o esforço rendeu a ela mais de US$ 160 mil em um dia. Greene ainda tuitou que ela “não deve desculpas” por suas ações e “nunca” vai desistir./ NYT e W. Post

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