Em Bagdá a vida continua, apesar das bombas

A conversa na hora do almoço num café da rua al-Saadoun, no coração de Bagdá, foi interrompida de repente pelo estrondo de uma forte explosão. Os fregueses balançaram levemente as cabeças e continuaram a conversa enquanto tomavam chá preto doce. A vida precisa seguir em frente, dizem os bagdalis, com bombas ou não. Como eles nunca cansam de repetir, não se trata da primeira vez que são bombardeados.Enquanto canções patrióticas soam da televisão sintonizada no principal canal estatal, os fregueses do café conversam sobre os episódios da noite de sexta-feira. Primeiro veio o som familiar das sirenes antiaéreas. E então os traços brancos e dourados da artilharia antiaéreas cortando o céu claro iluminado pela lua minguante. No momento seguinte, os disparos das armas preencheram a noite com um som também já familiar para os moradores de Bagdá. Em seguida os mísseis caem.CãesNa fase incial chamada pelo Pentágono de "choque e pavor" cerca de 300 mísseis de cruzeiro Tomahawk caíram nesta vasta e fabulosa cidade às margens do rio Tigre. As perdas em vidas humanas ainda não são conhecidas, mas a cada explosão, a cidade estremece violentamente. Alarmes de carros estacionados disparam. Cachorros, vagando sem rumo pelas ruas da cidade, latem insistentemente.Ataques devastam as instalações presidencias na margem ocidental do rio Tigre, fazendo-as parecer uma grande pintura abstrata em vermelho e preto. Colunas de fumaça saem de outros prédios governamentais pela cidade. A explosão de um míssil pouco depois do horizonte, ilumina o céu como enorme raio. A sirenes continuam a soar, mas agora elas vêm de velozes carros de polícia e de ambulâncias. O ar cheira a querosene.Crianças brincamNas manhãs, enquanto uma parte da cidade arde em chamas, crianças aparecem para brincar nas ruas e passear com suas bicicletas. Varredores de rua começam a trabalhar limpando cacos de vidro e outros destroços do bombardeios. Carros circulam pela cidade - um terço do total que normalmente lota as ruas de Bagdá. Ônibus vermelhos de dois andares percorrem os trajetos, apanham passageiros nas esquinas e os levam para o trabalho.No sábado, pequenos restaurantes estão abertos. Assim também como quintandas e padarias. Barbearias também estão funcionando. A maioria dos bagadalis ricos já partiu, se refugiando em relativa segurança no interior ou nos vizinhos Jordânia e Síria. Os que ficaram para trás, no que seria - nos dias normais - uma metrópole de 5 milhões de habitantes, são principalmente pessoas pobres. E mesmo quando sua cidade está sob ataque, os pobres têm de trabalhar para sobreviver. Eles se acostumaram com isso.Cidade secularEssa cidade secular, fundada em 762, foi invadida duas vezes pelos mongóis - a primeira em 1258 e outra vez em 1401. Mais recentemente, foi danificada durante troca de ataques de mísseis na Guerra Irã-Iraque nos anos 80. A cidade também foi duramente bombardeada em 1991 na Guerra do Golfo e atingida muita vezes desde então.No café da Rua al-Saadoun no sábado, um policial armado com um Kalashnikov irrompe e se senta para um copo de chá. Ele conta aos outros fregueses como dois aviões foram derrubados por uma bateria antiaérea no sul do Iraque. Depois de o ouvirem com atenção, retomam sua conversa. "Nós realmente temos alguma coisa que justifique tantos ataques?" pergunta um deles, sentando num banco de madeira debaixo de um retrato de Saddam em roupas árabes.AmendoimUm pouco mais para frente na rua al-Saadoun, Mohammed Jouda, de 24 anos, pensava em outras coisas. Nascido no distrito de Al-Kazmiyah, ele diz que abandonou a universidade para ajudar sua família depois que as sanções econômicas da ONU afetaram drasticamente o rendimento da família. Ele abriu uma pequena loja e passou a vender amêndoas a tâmaras. "Eu abandonei a Universidade al-Mustansyriah onde estava estudando Administração de Empresas", disse ele enquanto servia um cliente uma porção de amendoins - ao preço equivalente de US$ 0,05 - e paga com uma insignificante nota de 100 dinares que traz um retrato de Saddam.Apesar dos bombardeios, ele abriu a loja porque precisa de dinheiro. "Nós estamos acostumados a isso", diz. "E os negócios não estão indo mal." De repente, suas idéias. "Os nossos assuntos internos não são da conta dos americanos", diz. "Eu vou pegar qualquer coisa que tiver e atacá-los."Na sexta-feira à noite, seis famílias buscavam abrigo numa igreja fria e vazia na região da cidade de al Ghadeir. "Jesus, por favor, nos liberte", uma mulher sussurra enquanto os mísseis caem. "Jesus, nos liberte do nosso sofrimento." Uma imagem da Virgem Maria carregando o menino Jesus pende na parede. Veja o especial :

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