TV Estadão | 20.04.2016
TV Estadão | 20.04.2016

Em baixa, Hillary vê candidatura ameaçada

Rejeição à ex-secretária de Estado cresce após escândalo sobre uso de e-mail privado

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON

29 Maio 2016 | 05h00

Projetando a situação no atual estágio da campanha eleitoral americana há poucos meses, a maioria dos analistas políticos previa que Hillary Clinton já teria garantido a nomeação do Partido Democrata e Donald Trump estaria disputando a candidatura republicana em uma legenda cada vez mais fraturada. Os gurus acertaram parte das previsões, mas inverteram quais seriam os protagonistas.

O bilionário insurgente que tomou de assalto o Partido Republicano conquistou na quinta-feira o número de delegados necessários para garantir sua nomeação e evitar o risco de disputas na convenção que consagrará o representante da legenda em julho. No dia anterior, Hillary sofreu um dos mais sérios golpes de sua campanha com a divulgação de relatório do Departamento de Estado que a acusa de ter desrespeitado as regras da administração pública ao usar um servidor privado de internet durante o período em que comandou a instituição.

Na reta final das primárias partidárias, a ex-secretária de Estado, ex-senadora e ex-primeira-dama ainda precisa enfrentar um adversário cada vez mais agressivo. O senador esquerdista Bernie Sanders mantém a pressão sobre Hillary e afirma que é o democrata com mais condições de derrotar Trump nas eleições gerais marcadas para novembro.

Os dois candidatos estão tecnicamente empatados na Califórnia, o maior colégio eleitoral dos EUA, que irá às urnas no dia 7. Com 2.310 delegados garantidos, Hillary está próxima dos 2.383 necessários para conquistar a nomeação. Mas a eventual derrota no mais populoso Estado americano fortalecerá a narrativa de Sanders e seu argumento de que a liderança da ex-secretária de Estado se deve em parte ao apoio dos superdelegados, grupo representado por dirigentes e ocupantes de cargos eletivos do partido.

O mau momento de Hillary é agravado pelas pesquisas, que a mostram em empate técnico com Trump. Segundo analistas, era natural que isso ocorresse, já que o bilionário conquistou a candidatura republicana, enquanto ela continua na batalha com Sanders. Levantamento do New York Times mostra que pesquisas realizadas neste momento do período eleitoral costumam divergir em nove pontos porcentuais do resultado de novembro.

Dificuldades. Mas o preocupante para a candidata é o crescimento de sua rejeição. A média dos levantamentos recentes calculada pelo site Real Clear Politics mostra que 56% dos entrevistados têm uma visão negativa de Hillary e apenas 38% a veem de maneira positiva. Há um ano, o eleitorado se dividia ao meio, com 45% de cada lado.

“Um dos problemas para ela é que as pessoas estão relutantes em ver os Clinton de volta à Casa Branca”, disse ao Estado Cal Jillson, professor de Ciência Política da Southern Methodist University. “Bill Clinton foi presidente durante grande parte dos anos 90. Foi um bom momento econômico, mas houve escândalos e muitas dificuldades relacionadas ao casal.”

A polêmica em torno dos e-mails reforça a percepção de parte dos eleitores de que Hillary navega em um mundo de segredos e é desonesta. 

Jillson observou que a candidata enfrenta um paradoxo na reação que desperta nos eleitores. Nos momentos em que ocupa cargos públicos, a avaliação costuma ser alta, mas cai para o território negativo durante suas campanhas eleitorais. “Quando ela é desafiada de maneira agressiva ou é agressiva em desafiar seus oponentes, as pessoas se lembram dos aspectos desagradáveis dos Clintons na vida pública”, afirma o analista. 

Ainda assim, Jillson acredita que Hillary será a candidata democrata e derrotará o republicano nas eleições de novembro. “Sua salvação é que Donald Trump desperta uma avaliação negativa ainda maior e isso não deve mudar muito até a eleição”, ponderou o professor. De acordo com a média do Real Clear Politics, a rejeição ao bilionário é de 58%, enquanto sua aprovação está em 35%.

Ameaças. Mas o caminho da ex-secretária de Estado até a votação não será livre de novas turbulências. A principal ameaça é a investigação do FBI, a Polícia Federal americana, sobre seu uso de um servidor privado no Departamento de Estado.

Ainda que esse cenário seja considerado improvável por analistas, o caso pode levar a um indiciamento criminal de Hillary. A principal questão é se a utilização de um servidor privado - e não o do Departamento de Estado - expôs informações sigilosas. A candidata reconheceu que cometeu um equívoco, mas ressaltou que nenhum segredo de Estado foi ameaçado por seus e-mails. 

Hillary também sustenta que seus antecessores utilizaram servidores privados de internet. Mas enquanto não for concluída, a investigação do FBI continuará a ser uma sombra sobre sua campanha.

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