Em baixa, Cristina aumenta salários

Buscando popularidade, governo eleva mínimo do setor privado e propõe dois reajustes anuais para aposentadorias

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

30 de julho de 2008 | 00h00

Após quatro meses de conflito com o setor ruralista e de uma histórica derrota para seu governo no Parlamento, a presidente argentina, Cristina Kirchner, tenta recuperar popularidade. Para isso, nos últimos dois dias anunciou um aumento do salário mínimo para o setor privado e das aposentadorias. Outras medidas de impacto social estão sendo analisadas pelo governo, entre elas, a redução de alguns impostos.Informações extra-oficiais indicam que a agenda da presidente para os próximos dias também inclui a remoção de algumas figuras controvertidas do governo, com o Secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, acusado de manipular o índice de inflação e iniciar reuniões com empresários colocando um revólver em cima da mesa. Segundo várias pesquisas, a popularidade de Cristina despencou de quase 60% para menos de 20% nos primeiros seis meses deste ano.Na segunda-feira à noite, o Ministro do Trabalho, Carlos Tomada, anunciou, após horas de reuniões com líderes sindicais e empresariais, que o salário mínimo para o setor privado passaria de 980 pesos (US$ 326) para 1.240 pesos (US$ 413) - um aumento de 26,5%. O reajuste beneficia 300 mil trabalhadores do setor da construção civil, comércio e bancos, entre outros. Estima-se em 6% a parcela de trabalhadores com carteira assinada que recebem salário mínimo.O consenso entre empresários e sindicatos foi obtido depois de intensas pressões por parte do governo, que serviu de mediador.Hugo Moyano, líder da Confederação Geral do Trabalho (CGT), minimizou os efeitos negativos decorrentes do acordo salarial. "A inflação não é causada pelos salários", afirmou o sindicalista. Facundo Martínez Maino, da consultoria M&S, especializada no setor empresarial, afirmou ao Estado que o impacto do aumento salarial deve ser pequeno, já que alcança uma parcela limitada da população economicamente ativa - mais da metade dos trabalhadores argentinos estão na informalidade. A medida deve ter impacto na mídia: "Para a economia, é irrelevante", explica. "Empurra pouco o nível de consumo e não assusta os empresários", afirma Maino. "Os empresários, na verdade, estão mais preocupados com as discussões com os sindicatos sobre os salários dos níveis médios, que devem ocorrer até o fim do ano. Os sindicatos estão aumentando a pressão, uma vez que eles também recebem pressão de suas bases, que sentem o peso da inflação", diz.CORTEJANDO OS APOSENTADOSCom o mesmo objetivo de recuperar popularidade, Cristina remeteu um projeto de lei ao Parlamento que determina que as aposentadorias terão aumentos duas vezes por ano. Os aumentos, que em princípio só seriam aplicados a partir de março do ano que vem, beneficiarão - caso sejam aprovados pelo Parlamento - 5,6 milhões de aposentados. Fontes do governo indicaram que o aumento a ser aplicado em 2008 poderia oscilar entre 20% e 25%. A inflação do ano que vem deve ficar entre 26% e 27%, segundo estimativas independentes. Assim, os economistas têm ressaltado que o projeto de aumento das aposentadorias, embora anunciado como um grande benefício concedido pelo governo, não cobre sequer as perdas reais causadas pela inflação.MENOS SOBERBAUma pesquisa elaborada pela Universidade Aberta Interamericana (UAI) indica que os argentinos não vêem com bons olhos a presidente. Em resposta à indagação "se você pudesse assessorar Cristina, o que lhe diria em relação a seu modo de falar?", 42,4% dos entrevistados indicaram que lhe diriam para que falasse "com menos soberba". Outras opções indicavam "que fale com tom menos autoritário" (4,6%), "menos agressiva" (3,1%) e "menos impulsiva" (2,4%). Apenas 25% responderam que Cristina "está bem do jeito que é".A pesquisa também expressa o cansaço dos argentinos com o governo compartilhado entre Cristina e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner. A oposição e a opinião pública afirmam que trata-se de uma "inconveniente interferência".A sondagem indica que 79,2% dos entrevistados consideram que o ex-presidente deveria deixar Cristina governar sozinha.Nos últimos dias, Cristina evitou as críticas à imprensa, ao empresariado e aos produtores agrícolas.Sorrindo, fez três comícios em quatro dias com prefeitos dos municípios da Grande Buenos Aires (onde o governo tem seu reduto). Ela até apareceu jogando bocha com aposentados e riu de seu péssimo desempenho nesse esporte.NÚMEROS26,5% é o índicede aumento do salário mínimo do setor privado aprovado pelo governo6% é a parcelade trabalhadores que ganha o mínimo e deve ser beneficiada pela medida26% é o índice mínimode inflação prevista por economistas independentes para o ano que vem20% é a taxa de aprovação popular de Cristina, segundo pesquisas

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