Brendan Smialowski/AFP
Brendan Smialowski/AFP

Em Baltimore, população negra está sem esperança de melhoras independente de resultado eleitoral

Cidade portuária próxima a Washington é classificada como uma das mais segregadas do país

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2020 | 06h00

Demon Lane está convencido de que seu bairro do leste de Baltimore continuará tomado pelo tráfico de drogas, tiroteios, casas abandonadas infestadas de ratos e desesperança, não importa quem ganhe a eleição presidencial de 3 de novembro nos Estados Unidos.

Majoritariamente negra, profundamente pobre e devastada por décadas de abandono, a área em que vive contrasta fortemente com os prédios caros, lojas da moda e ruas seguras a apenas alguns quilômetros de distância, em bairros brancos ricos.

Quase dois terços da população de Baltimore é de afrodescendentes.

No entanto, esta cidade portuária próxima a Washington é classificada como uma das mais segregadas do país, onde os especialistas estimam que os moradores negros mais pobres vivem cerca de 20 anos menos do que as pessoas em bairros brancos ricos.

"Não houve mudanças com os últimos três presidentes. Portanto, não haverá mudanças com este próximo", diz Lane, de 27 anos, à Agência France Press, na entrada da casa geminada que divide com sua esposa e os três filhos pequenos. 

Do outro lado da rua, o lixo se acumula e, na maior parte do quarteirão, a grama cobre o vão das casas abandonadas que foram demolidas, como acontece com muitos dos milhares de edifícios vazios em uma cidade atormentada pelo violência nas ruas.

Ao fundo, passando por outro quarteirão de casas vazias, há um ponto de venda de drogas denominado "central do crack". Nos meses mais quentes do ano, Lane diz que ouve tiroteios cerca de três vezes por dia.

"Não tenho esperança. Só tenho esperança em mim mesmo, no que posso fazer pela minha família", acrescenta.

"Marco zero"

Os problemas de Baltimore têm sido uma ferramenta política para o presidente Donald Trump, que repetidamente atacou a cidade, governada por democratas por décadas, chamando-a de "a pior do país".

A frustração com a desigualdade racial explodiu em 2015 após a morte de Freddie Gray, um homem de 25 anos sob custódia policial, bem como durante os protestos nacionais do movimento Black Lives Matter, que encontrou forte ressonância na cidade.

Em algumas áreas de Baltimore, a leste e oeste do centro da cidade, a população é 90% negra e com renda média de US$ 14 mil por ano, de acordo com dados municipais de 2016.

Em algumas das áreas mais ricas, com renda média chegando a US$ 110 mil, os brancos representam 85% da população, de acordo com a mesma fonte.

Uma divisão que, segundo especialistas, vem de um passado de racismo na cidade.

"Baltimore é o marco zero para o apartheid urbano nos Estados Unidos", disse o pesquisador e ativista Lawrence Brown em entrevista publicada no YouTube este ano.

Em 1910, os líderes da cidade aprovaram a primeira lei de zoneamento racial da história americana, segundo a qual os negros não podiam se mudar para prédios de maioria branca e vice-versa. 

A Suprema Corte derrubou a lei sete anos depois, mas outras medidas, como "cláusulas restritivas" em títulos de propriedade que proibiam seu uso, ou aluguel, para um afro-americano, permaneceram aplicáveis por décadas.

Brown cunhou a frase "mariposa negra" para descrever como os cidadãos negros estão concentrados em áreas pobres no leste e no oeste de Baltimore, separados por uma linha de áreas brancas ricas.

Também observou como o investimento público em áreas de maioria branca abriu caminho para o dinheiro privado, algo que não aconteceu nas áreas negras.

"Sempre esquecidos"

Os bairros pobres têm escolas sem aquecimento no inverno, o desemprego entre os negros é duas vezes maior que entre os brancos e, no mesmo quarteirão de Lane, há casas avaliadas em menos de US$ 20 mil.

Uma das descrições mais cruas das divisões de Baltimore é a expectativa de vida, segundo o jornalista e escritor Lawrence Lanahan à Agência France Press: um bebê do norte branco rico tem uma expectativa de vida de cerca de duas décadas a mais do que um do pobre e negro leste.

"Você pode colocar todas as bandeiras Black Lives Matter que quiser, se for branco continuará a se beneficiar do sistema", acrescentou Lanahan. "A riqueza segue o branco, e o negro é penalizado. É por isso que as coisas não mudam", completa.

Alguns especialistas pedem que Baltimore pague grandes quantias de indenização para seus bairros negros, ou que crie fundos locais para lançar grandes projetos que ajudem a energizar os bairros mais pobres.

Enquanto isso, Trump, que disputa a Casa Branca com o democrata Joe Biden, endossou Kim Klacik, uma mulher negra que concorre a uma das cadeiras locais para o Congresso nas eleições de 3 de novembro e que, de acordo com ele, "vai consertar e rápido" a localidade.

Para o morador do leste de Baltimore Edmond Hargrove, um afro-americano de 43 anos, nenhuma mudança virá, não importa quem ocupe a Casa Branca. "Somos sempre esquecidos. Eles nos prometem coisas...seis meses depois tudo está exatamente como antes", desabafou. /AFP

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