Nabil Mounzer/EFE/EPA
Nabil Mounzer/EFE/EPA

Em Beirute, bairro boêmio com casas centenárias vira massa de escombros

Mar Mikhael, considerado o mais charmoso da cidade, com seus bares frequentado por jovens, é destruído por explosão

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2020 | 04h30

BEIRUTE - Os bares ao ar livre, onde jovens se reuniam todas as noites, estão devastados, as casas tradicionais centenárias destruídas, as galerias de arte aniquiladas: o bairro Mar Mikhael, que para muitos era o charme de Beirute, agora está reduzido a uma massa de escombros.

“Mar Mikhael era o coração pulsante de Beirute”, diz Lina Daoud, uma voluntária de 45 anos que distribui comida e água a equipes de resgate e moradores do bairro devastado pela explosão no porto.

“Para mim, agora é um terreno desconhecido. Nunca pensei que chegaria o dia em que veria o bairro assim”, afirma, enquanto soam as sirenes das ambulâncias que passam pelo setor.

O distrito fica perto do porto de Beirute, onde ocorreram duas grandes explosões na terça-feira, atingindo áreas inteiras da capital libanesa e matando ao menos 135 pessoas. 

Hoje, mesmo os moradores do local, que era o destino preferido dos jovens por seus bares e casas noturnas, não o reconhecem mais. 

Em sua tradicional casa centenária, Michel Asad recolhe os pedaços de vidro e os coloca em um balde, que ele despeja em uma pilha de escombros. 

É como se um ciclone tivesse passado por sua casa, completamente devastada. Na entrada, ele imediatamente recolocou a estátua da Virgem Maria em seu lugar, embora tenha sido decapitada pela explosão. “Morei nesta casa a vida toda. Eu poderia ter morrido aqui”, disse o homem de 53 anos, que não esconde sua raiva.

Ele aponta para as outras casas tradicionais que davam charme ao bairro. As mais velhas desabaram, outras ficaram sem teto ou têm um enorme buraco na parede. “Somos centenas, até milhares aqui” afetados pela explosão, acrescenta, mostrando a extensão dos danos. 

Segundo o governador de Beirute, Marwan Abboud, até 300 mil pessoas ficaram desabrigadas em uma cidade de cerca de 2 milhões de pessoas. 

Lembranças

As calçadas da rua estreita estão cobertas de vidro quebrado e carros destruídos, com airbags saindo das janelas, bloqueando a entrada nos veículos enquanto seus donos esperam o reboque.

Os socorristas continuam procurando por vítimas no bairro. Dezenas de pessoas, arrastando malas muito pesadas, deixam o local às pressas. 

Uma idosa, carregando quatro malas, tenta atravessar a multidão e os escombros. Outra mulher, que não tem forças para sair de casa, é carregada por equipes de resgate que a puxam para fora em uma cadeira de madeira em que ela estava sentada em sua sala de estar.

Khalil, um homem de 70 anos que usando uma máscara contra a covid-19, explica que vive no bairro há cerca de 50 anos, mesmo nos momentos mais críticos da guerra civil que atingiu o país entre 1975 e 1990. “Durante a guerra, foguetes caíram em todos os lugares. Mas nunca vimos nada parecido. Não teríamos imaginado isso nem em nossos piores pesadelos.” 

“É como a 2.ª Guerra ”, diz um pedestre, enquanto observa a destruição e os edifícios que ameaçam desmoronar a qualquer momento. Ao lado dele, uma mulher chora enquanto explica a cena da destruição para um amigo no telefone. 

A voluntária Tala Masri tenta remover os pedaços de vidro da calçada com uma vassoura. “Mar Mikhael é nossa segunda casa, especialmente para nós, jovens”, disse a estudante de 18 anos. “Mesmo com o coronavírus e tudo o que aconteceu no país, eu sempre tive confiança. Mas agora, acabou.”/ AFP 

 

Tudo o que sabemos sobre:
Líbano [Ásia]Beirute [Líbano]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.