Em Benghazi, ''pegas'' e tédio substituem a luta

Com impasse na guerra civil entre insurgentes e Kadafi, praça da capital rebelde vira palco de[br]disputas de automóveis

Kareem Fahim, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2011 | 00h00

THE NEW YORK TIMES / BENGHAZI, LÍBIA

O sedã branco amassado se lança para a frente. O motor geme e os pneus guincham através da ampla praça de ladrilhos, fazendo derrapagens e cavalos de pau. Em um rápido arranque, o motorista quase bate em outros carros que também fazem curvas sinuosas, e, em um golpe com a mão, breca o carro bruscamente, a poucos metros da multidão que o aplaude.

O plateia está de olhos fixos nos carros. Dos automóveis estacionados, jovens tentavam convencer o motorista, Abadi al-Majberi, no outro canto da praça, a fazer uma exibição para eles. Outros se aproximavam, filmando com seus celulares o perigoso balé automotivo conhecido aqui como "derrapagem".

Para esses jovens, não há mais guerra para assistir - os líderes rebeldes deixaram o campo de batalha há algumas semanas - salvo alguns pontos de rebelião e vagos protestos diários com objetivos incertos. Ver esses carros a toda velocidade e quase se chocando preenche um vazio. Para Muhammad Abu Khairad, motorista de caminhão, a experiência é muito boa. "É muito perigoso. É radical.", diz.

Essas manobras, que nos últimos anos vêm entusiasmando jovens entediados de todo o mundo, já eram há muito tempo a diversão predileta em Benghazi, cidade com muitos carros e jovens. Antes do início da revolta, em fevereiro, já havia reuniões na Praça Kish nas noites de quinta-feira para assistir aos motoristas e às suas derrapagens em alta velocidade. Até que a polícia os proibiu.

No final daquele mês, esses shows pararam por um tempo, quando esses mesmos jovens passaram a combater as forças de segurança de Muamar Kadafi nas ruas de Benghazi e, nas semanas seguintes, em cidades a quilômetros de distância dali.

Agora, presa num espaço de cólera e sem rumo, entre revolta e libertação, a multidão voltou a assistir-lhes em suas manobras radicais, cujas exibições coreografadas de perda controlada da tração parecem mais populares do que nunca. A polícia já não incomoda mais os motoristas.

Dívida Ativa cresce 7,17% e encosta . Os poucos policiais que voltaram às ruas têm pessoas mais importantes para prender. "Alguma coisa dentro do meu coração me impele para lá, para ver", diz Mustafa Bakoush, de 29 anos. "Isso aqui está um tédio."

Nos carros estacionados na praça, os espectadores fumam cigarros de maconha, ouvem música rap a todo o volume e se sentam nos capôs dos carros, compartilhando os mais recentes vídeos da guerra nos celulares.

Mohammed Hussein, 25 anos, está sentado numa caminhonete com dois vizinhos - um motorista de caminhão e um traficante de maconha com tatuagens feitas na prisão nos braços, com a inscrição "Amor" e "Tortura".

Hussein e seus amigos participaram das brigadas rebeldes, mas agora praticamente não há combates e não existe muito o que fazer. "Aqui não tem diversão", diz ele, acusando Kadafi, cujo nome é hoje a explicação para todos os males da vida. "Ele nos esmagou.".

A capital de facto dos rebeldes está insatisfeita, estrangulada com misteriosos congestionamentos que se formam em horas estranhas por razões desconhecidas, já que muita gente não está trabalhando.

Muitas pessoas, que esperavam começar um novo país, parecem estar perdendo a paciência: brigas explodem por causa de batidas de carros em cruzamentos sem policiamento. E agora as pessoas ignoram as notícias que antes as deixavam grudadas nos televisores dos cafés.

Muitos se cansaram de esperar. Próximo da Praça Kish, um grupo de jovens ainda cheios de energia, sentavam-se em torno de uma caminhonete, cantando um rap chamado "Mártires do Katiba". Eles têm empregos sem nenhuma perspectiva, mas conservam grandes esperanças. "Queremos salários, e uma mulher", diz Muhammad Faytouri, de 17 anos. "E uma BMW", acrescenta seu amigo Ahmed Sheikhi. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.