Neil Hall/EFE/EPA
Neil Hall/EFE/EPA

Em Bristol, estátua de manifestante negra substitui homenagem a comerciante de escravos

Imagem de Jen Reid erguendo o punho cerrado no alto do pedestal tornou-se um símbolo de protesto; agora, instalação clandestina quer inspirar debates

Mark Landler, The New York Times

16 de julho de 2020 | 04h00

LONDRES – Jen Reid nunca participara de uma passeata com o grupo Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) antes de aderir aos protestos nas ruas de Bristol, na Inglaterra, no dia 7 de junho. No fim daquele dia de revolta e ira, ela escalou o pedestal e ficou de pé no lugar de um comerciante de escravos do século 17, cuja estátua de bronze foi derrubada e jogada no porto da cidade.

A imagem de Jen, o punho cerrado, o braço direito erguido em um gesto de desafio, correu o mundo pelas redes sociais. Para muitos, pareceu uma perfeita substituição do famigerado comerciante, Edward Colston – e uma áspera crítica ao seu cruel legado do que persiste na moderna Bristol.

Na madrugada da manhã de quarta-feira, Jen estava novamente lá no alto, sob a forma de uma escultura de resina e aço de autoria de Marc Quinn. Importante escultor britânico conhecido por sua obras provocadoras, Quinn disse que quando viu a imagem de Jen de pé no pedestal, percebeu a oportunidade de contribuir para a arte da guerrilha.

Entrou em contato com Jen e propôs um projeto clandestino, em que ela posaria para uma escultura que ele próprio pretendia instalar no lugar onde antes se erguia a estátua de Colston. Trabalhando com uma equipe de dez pessoas, Quinn produziu rapidamente a peça sem a aprovação das autoridades municipais. Por quanto tempo permitirão que ela continue lá, não se sabe. “Foi ela que criou esta imagem icônica”, disse Quinn em uma entrevista. “Eu só amplifiquei o momento”.

Segundo ele, a escultura representa um complemento dos protestos, que, espera, possa provocar debates a respeito de “como celebramos os feitos das pessoas em estátuas”. Embora não acredite que a prefeitura irá deixá-la em caráter permanente, ele espera que possa ficar o tempo suficiente para inspirar uma conversação.

Jen, que é estilista de moda, disse que achou “surreal” o fato de um artista transformar em memorial a sua decisão espontânea de subir no pedestal, momento que ela recorda com uma mescla de alegria e temor, porque teve medo de cair. “Olhando para trás, para aquele gesto, sinto arrepios”, ela disse. “Marc captou tudo na estátua”.

Antes mesmo daquele momento, Jen disse que ficava apreensiva à ideia de participar da manifestação. Ela cuida de pais idosos e se preocupou pela possibilidade de contrair o coronavírus no meio da multidão. Mas sua revolta com o assassinato de George Floyd pelo policial, em Minneapolis, superou os seus temores, contou, e decidiu ir, até comprou uma boina e uma luva preta para a ocasião.

Jen e seu marido, Alasdair Dogart, ouviram alguns discursos antes de participar de uma passeata de protesto até o local da estátua de Colston. Depois de observar a multidão arrancá-la e jogá-la na água, o casal retornou ao pedestal vazio, onde – com a ajuda do marido – ela ficou de pé, no alto, e fez a pose.

“Não foi tão fácil quanto parecia porque era bem mais alta do que eu tinha imaginado”, afirmou. “Minhas pernas tremiam como geleia. Subi devagar, mas, quando fiquei de pé e ergui o punho, a multidão começou a gritar enlouquecida”.

Doggart tirou uma foto, que postou na sua conta no Instagram. Na manhã seguinte, depois que um colega de Quinn a mostrou para ele, chamou Jen e propôs o projeto. Em estúdio de produções cinematográficas nos arredores de Londres, ela recriou a pose para Quinn, que instalou 200 câmeras para fotografá-la de todos os ângulos.

Feita uma varredura em três dimensões, Quinn fez a escultura de resina. Se trabalhasse em bronze, levaria meses para concluir o projeto, e ele queria instalar a peça enquanto as lembranças daquele dia eram ainda frescas.

Quinn faz parte de um grupo de artistas visuais britânicos conhecido como Jovens Artistas Britânicos, YBA em inglês, que se destacaram nos anos 80. O grupo, que inclui Damien Hirst e Tracey Emin, é conhecido pela capacidade de chocar de suas obras, como a exibição de um tubarão conservado em formol de Hirst.

A peça mais conhecida de Quinn é uma reprodução de sua cabeça, feita com o seu sangue congelado. Ele também chamou a atenção por uma escultura em mármore, “Alison Lapper grávida”, que representava uma mulher com uma doença que a deixou sem braços e encurtou suas pernas. Ela foi colocada sobre um pedestal na Praça Trafalgar, em Londres, onde ficou de 2005 a 2007.

“Estou interessado na maneira como a sociedade se movimenta, e em transpô-la para o mundo da arte, que é uma espécie de antisséptico”, falou Quinn. “E por eu ser um artista posso levantar este tipo de coisa. É uma frase temporária na conversação”.

Desde o mês passado, a cidade debate a respeito do que deverá substituir de maneira permanente a estátua de Colston. Os historiadores sugeriram uma estátua a Paul Stephenson, um ativista preto que organizou um boicote bem-sucedido a uma empresa de ônibus de Bristol nos anos 60. Um manequim de Jimmy Savile, o infeliz âncora da televisão da BBC – com uma peruca loira e um agasalho neon – foi colocado sobre o pedestal onde ficou por alguns dias.

Quanto à estátua de Colston, o prefeito de Bristol, Martin Rees, ordenou que fosse retirada das águas do porto e guardada em um depósito onde ficará segura enquanto o público debate o que fazer com ela. Provavelmente acabará em um museu local onde há uma mostra sobre a relação de Bristol com o comércio escravo.

Banksy, o arredio artista de rua que se tornou famoso por seus grafites nos muros de edifícios em Bristol, postou no Instagram o esboço de um memorial a Colston no ato de ser derrubado, com os manifestantes puxando as cordas em torno do seu pescoço.

Para Jen, descendente de imigrantes jamaicanos, o debate sobre a estátua simboliza a relutância da cidade de Bristol a encarar o passado sinistro de um dos seus maiores benfeitores. O nome de Colston continua em uma escola, em um centro de artes do espetáculo e em várias outras instituições da cidade. Embora esteja prestes a ser retirado. “Nos últimos cinco anos, passei pela estátua diariamente”, disse.  “É uma afronta ter de passar todos os dias diante de um comerciante de escravos “

Jen diz que não tem ideia se a prefeitura permitirá que a sua estátua permaneça no lugar por muitos meses – ou só um dia. Mas confessa que sente ainda arrepios por fazer parte da paisagem urbana de Bristol em uma época de mudança social. “Eu digo às pessoas que me encontrem ao lado da minha estátua”, disse rindo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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