MARVIN RECINOS / AFP
MARVIN RECINOS / AFP

Em busca de sinal, salvadorenhas sobem até em árvores para assistir aulas virtuais

A luta de duas irmãs é também a de milhares de salvadorenhos, especialmente nas áreas rurais, que precisam fazer malabarismos para estudar à distância

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2020 | 06h00

As irmãs Matilde e Marlene Pimentel Álvarez precisam levar os estudos universitários literalmente para cima: todos os dias precisam subir uma montanha no oeste de El Salvador, depois subir em uma árvore para obter sinal de internet e, assim, conseguirem assistir às aulas. 

"Para a maioria dos que vivem em zonas rurais está sendo difícil (estudar). Não há cobertura de internet", afirma Matilde, jovem estudante de matemática de 22 anos. A irmã dela, Marlene, de 19 anos, quer ser licenciada em Estatística e a acompanha na saga. As duas desejam ser as primeiras da família a se formarem na universidade. 

A luta das irmãs é a mesma da de milhares de salvadorenhos, em especial na zona rural, que realizam malabares para estudar à distância já que desde março as aulas presenciais foram suspensas em razão da pandemia do novo coronavírus. As aulas virtuais continuarão em El Salvador até o fim do ano. 

As irmãs Pimentel moram em El Tigre, quase na fronteira com a Guatemala, e conseguir uma conexão de internet é quase um milagre. A história delas ganhou destaque quando o policial Castro Ruiz encontrou Matilde no meio de uma montanha. 

Quando ele perguntou o que havia acontecido com a menina, ela respondeu "apenas vim estudar". Assustado e comovido, Castro Ruiz tirou uma fotografia e divulgou nas redes sociais. 

Perigos no caminho

Para chegar ao topo da montanha durante a temporada de chuvas no país, as duas irmãs caminham um quilômetro por uma trilha escorregadia em meio à vegetação rasteira, com medo de serpentes esquivas. Chegar na parte de cima não é fácil, já que as duas carregam um guarda-chuvas, uma mesa e cadeiras para conseguirem estudar.

No alto da árvore oliveira, Marlene diz "essa é a única forma de conseguirmos um pouco de sinal da internet. As vezes nem aqui funciona". Ela admite sentir medo de cair da árvore e ter que ir a um hospital ou mesmo de se deparar com algum animal venenoso no caminho. 

Matilde é a sétima de 10 irmãos e Marlene é a oitava. Elas vendem pães aos finais de semana para ajudar o pai, Porfirio Pimentel, dedicado ao cultivo de milho, feijões e abóbora. 

Em El Salvador, com uma cadeia vulcânica que dificulta as ondas de microondas em um território de 20.742 km2 e 6,6 milhões de habitantes, apenas 58,6% da população é usuária de internet, segundo a Internet World Status. / AFP 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.