Jim Huylebroek/The New York Times
Jim Huylebroek/The New York Times

Em busca de sorte, família afegã batiza filho como Donald Trump e tem azar

Até agora, no entanto, escolha trouxe mais problemas e adversidades do que benefícios, incluindo o rompimento da relação com avós da criança; em outro caso, possivelmente falso, família homem afegão diz batizou gêmeos de Donald Trump e Vladimir Putin

O Estado de S.Paulo

14 Março 2018 | 10h55

CABUL - Mesmo quando ainda estava no útero de sua mãe, Donald Trump era incomumente sensível. Nas noites em que a ela estava angustiada, o bebê ficava inquieto, se virando e a chutando.

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Então, numa tarde chuvosa de outono em uma aldeia com cerca de 200 casas de adobe, chegou a hora de seu nascimento. Não havia enfermeiras ou parteiras, então a mulher de um vizinho ajudou. O recém-nascido ficou calmo. Ele tinha cabelo loiro e pés e mãos normais.

Esta não é a história de Donald J. Trump, filho de Mary e Fred Trump, e presidente dos EUA. Esta é a história de Donald Trump, terceiro filho de Jamila e Sayed Assadullah, nascido no distrito de Shahristan no interior da província de Daikundi, no Afeganistão, em 3 de setembro de 2016 - época em que seu homônimo americano se preparava para o primeiro debate presidencial depois de conquistar a indicação do Partido Republicano à Casa Branca.

O bebê Donald Trump foi batizado com este nome em razão da admiração de seu pai pelo magnata americano. Assadullah vem de uma família pobre de agricultores em um lugar onde uma boa colheita de amêndoas muitas vezes faz a diferença entre morrer de fome ou não.

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Mas, apesar das dificuldades, ele conseguiu um diploma universitário, leu os livros de Trump e o assistiu na televisão, que a família usava graças aos painéis solares instalados na aldeia por uma organização de ajuda humanitária.

Assadullah tinha esperança que dar o mesmo nome do famoso empresário do ramo imobiliário e apresentador de TV para seu filho, de alguma forma, poderia trazer sorte para a criança. Mas isso ainda não aconteceu - na verdade, até agora a família teve mais adversidades.

A escolha de um nome não muçulmano para o bebê enfureceu seus parentes a ponto de a família deixar de ser bem-vinda em seu vilarejo em Daikundi, tendo que se mudar para uma casa alugada na capital afegã, Cabul.

"Eu estava lendo os livros de Trump", diz o pai, enquanto o pequeno Donald Trump, sentado em seu colo, mexe no celular. "Eu li o livro 'Como ficar Rico' e li sobre seu histórico: como ele construiu a Trump Tower, como virou líder do partido. Entendo que ele é um homem muito trabalhador. E pensei que se nomeasse meu filho Donald Trump, isso poderia afetar sua personalidade e comportamento."

Assadullah afirmou que a semelhança física ajudou na sua convicção. "Quando meu filho nasceu, seu cabelo era completamente loiro, como o de Trump. Neste momento, decidi dar o nome para ele", explicou.

A criança, no entanto, ficou 10 dias sem ter um nome. Isso porque, tradicionalmente, os avós dão a primeira sugestão para os pais avaliarem, mas Assadullah queria romper com esta tradição e não tinha coragem para enfrentar sua família. 

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Quando finalmente revelou sua decisão, ele foi ridicularizado. Pouco depois, seu parentes se revoltaram. "Quando dei o nome de Donald Trump para meu filho, eles não ficaram felizes. E questionaram: Como você pode dar o nome de um infiel para seu filho?", explicou.

"A relação com a minha família não melhorou depois. Meu pai é uma pessoa brava. Ele me disse que não toleraria o fato de eu nomear meu filho Donald Trump, então eu me mudei com minha família pra Cabul", disse Assadullah.

A história do pequeno Donald Trump, que hoje tem um ano e meio, ficou oculta em boa parte do tempo mesmo depois de a família se mudar para a capital. Mas, recentemente, uma cópia da identidade do garoto começou a circular nas redes sociais. Assadullah diz que a imagem foi colocada na internet por funcionários do departamento de registro populacional sem a sua permissão.

Depois que a notícia do jovem Donald Trump se espalhou, outra família apresentou uma história semelhante. Ghulam Ali Paiman, também de Shahristan, em Daikundi, disse que teve filhos gêmeos cerca de dois anos atrás e os batizou de Vladimir Putin e Barack Hussein Obama. Ele alega, no entanto, que sua mulher não ficou feliz porque queria que a segunda criança se chamasse Donald Trump.

A história de Paiman, no entanto, é difícil de ser confirmada. Ele enviou ao New York Times cópias do que disse serem certidões de nascimento emitidas pelo hospital, mas elas foram feitas nesta semana, quase dois anos depois do nascimento dos gêmeos. 

O diretor do hospital confirmou a emissão dos certificados de nascimento, mas disse que não conseguiu encontrar crianças com os nomes Putin e Obama nascidos há dois anos.

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Pela tradição afegã, a maioria das famílias escolhe o nome dos seus filhos no sexto dia após o nascimento - bastante tempo de terem deixado os hospitais, se for o caso, mas bem menos do que os dois anos do caso de Paiman. O NYT não conseguiu verificar a história com outras fontes.

"É a primeira vez que ouço falar destes gêmeos chamados Trump e Putin", diz Shafaq Yaqoobi, governador do distrito de Shahristan. "Eu conheço o pai. Mas nunca ouvi dele ou de qualquer outra pessoas que as crianças tinham recebido estes nomes", completou.

"Meu eu fiquei sabendo do bebê Donald Trump cujo pai é Sayed Assadullah." / NYT

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