Em busca de uma América saudável

Deve haver um meio termo para o rigor da China e a anarquia dos ''wikileakers'' que possa ser usado nos EUA

Thomas L. Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2010 | 00h00

O ex-presidente José María Figueres, da Costa Rica, tem um ditado que diz: "Não há um Planeta B" - de modo que seria melhor fazermos o Plano A funcionar para preservar um meio ambiente estável. Hoje, sinto o mesmo sobre os EUA. Não há uma América B, por isso é melhor fazermos esta funcionar melhor do que estamos fazendo, e não só pelo nosso bem. Quando a Grã-Bretanha entrou em declínio como a potência estabilizadora do mundo, os EUA estavam lá, prontos para assumir o papel. Apesar de todas nossas imperfeições e erros, o mundo foi um lugar melhor por isso. Mas se os EUA enfraquecerem e não puderem projetar poder como têm feito, nossos filhos não somente crescerão numa país diferente. Eles crescerão num mundo diferente. Você não vai gostar de quem recolherá os pedaços. Basta olhar algumas manchetes recentes.

O sistema mundial está sendo desafiado atualmente por duas novas forças: uma superpotência em ascensão chamada China, e um conjunto ascendente de indivíduos superpoderosos, representados pelos "wikileakers", entre outros. O que a globalização, a integração tecnológica e o achatamento geral do mundo fizeram foi dar tamanha quantidade de superpoderes a indivíduos que eles podem realmente desafiar qualquer hierarquia - de um banco global a um Estado-nação - enquanto indivíduos.

A China montou um show de som e luzes nas últimas semanas que ressaltou em que medida a influência de sua economia ascendente pode ser usada para deformar a ordem internacional liderada pelos EUA quando bem entender. Estou falando especificamente do extremo a que a China chegou para não só rejeitar o Prêmio Nobel da Paz conferido a um de seus cidadãos - Liu Xiaobo, que cumpre pena de 11 anos de prisão por "subversão do poder estatal" - como também coagir parceiros comerciais a nem sequer enviar representantes à cerimônia de entrega em Oslo.

Liu foi representado na cerimônia do Nobel por uma cadeira vazia porque a China não o soltaria da prisão - apenas a quinta vez nos 109 anos de história do prêmio em que o vencedor não compareceu. Por pressão de Pequim, os seguintes países aderiram ao boicote chinês à cerimônia: Sérvia, Marrocos, Paquistão, Venezuela, Afeganistão, Colômbia, Ucrânia, Argélia, Cuba, Egito, Irã, Iraque, Casaquistão, Rússia, Arábia Saudita, Sudão, Tunísia, Vietnã e Filipinas. Que bando mais patético.

"A cadeira vazia na prefeitura de Oslo na sexta-feira não foi apenas a de Liu, mas da própria China", observou Rowan Callick, um colunista de The Australian. "O mundo continua à espera de a China jogar seu pleno e apropriado papel nos assuntos internacionais. A crueldade de um país civilizado bem-sucedido jogar um papel dominante como esteio - ainda que meramente por omissão, às vezes - de Estados cruéis, fracassados ou decadentes é intensamente frustrante." E não é só isso. O jornal Financial Times reportou que "na frente do apartamento de Liu em Pequim, onde a mulher dele, Liu Xia, vem sendo mantida em prisão domiciliar desde que o prêmio foi anunciado, tapumes azuis foram levantados bloqueando a visão do edifício às câmeras de televisão." Honestamente, eu achava que os líderes chineses fossem mais autoconfiantes do que isso. Eles estão se sentindo muito inseguros, é evidente. Pensem se a China houvesse dito: "Nós discordamos desse prêmio e não compareceremos. Mas toda vez que um de nossos cidadãos é homenageado com um Nobel, isso é uma honra para toda a China - e portanto deixaremos isso à sua família." Teria sido uma história de pouca repercussão, e os líderes chineses pareceriam fortes.

Quanto aos indivíduos com superpoderes - alguns são construtivos, alguns destrutivos. Eu li muitos WikiLeaks e tomei conhecimento de coisas úteis, Mas a divulgação dos documentos também coloca algumas questões perturbadoras. Eu não quero viver num país onde atiram denunciantes de mazelas públicas na prisão. Assim é a China. Mas tampouco não quero viver num país onde qualquer indivíduo se sente qualificado a simplesmente divulgar todas as comunicações internas de um governo ou de um banco, solapando a capacidade de se ter comunicações privadas, confidenciais, que são vitais para o funcionamento de qualquer sociedade. Isso é anarquia.

Mas o fato é este: uma China que pode calar conversações muito além de suas fronteiras e indivíduos superpoderosos que podem expor conversas muito além de suas fronteiras - ou criar levas de hackers ativistas que podem derreter os computadores de pessoas que não apreciam - são hoje uma realidade. Eles são poderes em ascensão. Para termos um mundo estável, teremos de aprender hoje como obter o melhor de ambos e limitar o pior; de ter respostas legais e tecnológicas inteligentes.

Para esse trabalho, não há alternativa a uma América forte. Os críticos diziam do Partido Trabalhista britânico dos anos 60 que a Grã-Bretanha que eles estavam tentando construir era meio Suécia e meio paraíso. A alternativa hoje a um mundo ordenado pelo poder americano não é algum sistema multipolar aconchegante. É meio China e meio indivíduos superpoderosos.

Conseguir isso não será fácil. Mas será bem mais fácil com uma América saudável, comprometida com seus valores básicos, suficientemente poderosa para projetá-los e suficientemente bem-sucedida para os outros desejarem seguir sua liderança - voluntariamente. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É COLUNISTA E ESCRITOR

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