Halo Trust / AFP
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Em campanha contra minas terrestres, príncipe Harry refaz caminho da mãe em Angola

Ainda existem em Angola cerca de 1,2 mil campos minados, cobrindo mais de 100 Km², de acordo com a Halo Trust, uma organização sem fins lucrativos britânica que recebe o príncipe

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2019 | 16h38

HUAMBO, ANGOLA - O príncipe Harry honrou nesta sexta-feira, 27, o trabalho de sua mãe em Angola, caminhando por um campo de minas, com capacete e colete de proteção, como fez a princesa de Gales em 1997.

"As minas são um flagelo da guerra", declarou Harry em um vídeo publicado pelo canal britânico ITN. "Desminando, podemos ajudar essa comunidade a encontrar a paz e com a paz vêm as oportunidades", acrescentou, da localidade de Dirico, no sudeste de Angola.

O príncipe, que detonou à distância um explosivo no âmbito de uma operação totalmente controlada, continuou sua visita na cidade de Huambo, cerca de mil quilômetros ao noroeste. Lá, a princesa Diana, comprometida contra as minas antipessoais, também caminhou em um campo minado em 1997.

Poucos meses depois de sua visita a Angola, a princesa de Gales morreu em um acidente de carro em Paris. Harry tinha 12 anos.

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O estreito caminho de terra batida que Diana trilhou em Huambo está tomado hoje por casas, lojas e uma estrada asfaltada. Longe dele, estão os cartazes de um crânio e ossos cruzados e o aviso sobre a necessidade de se usar um colete à prova de balas.

A visita de Diana, há 22 anos, fez aumentar o financiamento internacional para limpar o solo - e 133 países assinaram um tratado que proíbe minas terrestres – embora os explosivos continuem atingindo angolanos da área rural, que ainda lutam com as consequências da sangrenta guerra civil terminada em 2002.

"Ainda há muito a ser feito”, disse o príncipe Harry em uma audiência em Londres em junho. "O fato de o financiamento ter sido reduzido em 90% na última década é bastante chocante."

Os Estados Unidos foram os principais benfeitores de Angola, na tentativa de remover as minas terrestres instaladas durante o conflito de 27 anos, enviando US$ 129 milhões para a iniciativa, desde 1993.

Ao longo dos anos, no entanto, o financiamento secou quando as batalhas no Afeganistão, na Somália e em outros lugares atraíram a atenção internacional.

Angola, que entra no seu quarto ano de recessão, esforça-se para terminar o trabalho. Recentemente, o governo prometeu US$ 60 milhões para a limpeza, mas isso não é suficiente para atingir sua meta de eliminar as minas no país até 2025.

“Com a atual taxa de financiamento, Angola só estará livre de minas terrestres em 2046”, disse Alex Vines, chefe do Programa para África da Chatham House, um instituto global de altos estudos.

A remoção segura de minas terrestres é cara, disse ele. Os especialistas usam detectores de metal e drones que detectam irregularidades no solo.

Quando o helicóptero de Diana pousou em Huambo em 1997, as Nações Unidas estimavam que milhões de minas terrestres estavam espalhadas por todo o país, que tem o tamanho dos Estados do Texas e da Califórnia juntos.

Sete dos 37 tipos de explosivos identificados em um relatório foram fabricados nos Estados Unidos. Outros fornecedores incluíram empresas em Portugal, Cuba, África do Sul e Alemanha.

Ainda existem em Angola cerca de 1,2 mil campos minados, cobrindo mais de 100 km², de acordo com a Halo Trust, uma organização sem fins lucrativos britânica que acompanhou o príncipe Harry.

“Essas são frequentemente as pessoas mais pobres e com menos acesso a serviços sociais”, afirmou Ralph Legg, gerente de programas da Halo Trust em Angola.

O problema piora na estação chuvosa de Angola, quando a água leva as minas terrestres para os campos que as pessoas pensam serem seguras.

Em julho, um homem que trabalha para uma madeireira pisou em uma delas, de acordo com o advogado da vítima. Ele continua internado.

Pelo menos 88 mil pessoas em Angola foram feridas por minas terrestres, segundo a contagem mais recente da Halo Trust. O número de mortos é desconhecido.

A luta contra os explosivos instalados sob o solo ficou mais complicada desde que a princesa Diana vestiu sua jaqueta, disse Paul Heslop, o especialista em minas que a conduziu pelo campo em Angola.

Moçambique, que também estava cheia de minas terrestres após uma guerra civil, anunciou que estava livre delas em 2015, após uma iniciativa de duas décadas. Mas combatentes no Iraque e na Síria, por exemplo, desencadearam uma era mortal de bombas caseiras.

Heslop espera que a visita do príncipe Harry desperte tanta atenção quanto a de sua mãe. “As imagens dela foram transmitidas ao redor do mundo”, disse ele, “muitas vezes”. / W.POST e AFP

TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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