Em Caracas, o futuro de Cuba

Dissidentes do regime castrista esperam que mudanças na Venezuela atinjam Havana

Victoria Burnett e William Neuman*, The New York Times/O Estado de S.Paulo

28 de março de 2014 | 02h06

Enfurecidos com seus líderes, muitos manifestantes que foram às ruas na Venezuela estão de olhos postos em outro governo, contra o qual estão profundamente ressentidos: o de Cuba. Eles afirmam que o governo cubano e seu presidente, Raúl Castro, aproveitaram-se da riqueza de petróleo da Venezuela, transplantaram a rígida marca de socialismo de Cuba em seu país e montaram um amplo esquema de repressão aos dissidentes.

O rancor generalizado encontra eco na oposição cubana, que apoiou entusiasticamente a causa dos manifestantes venezuelanos, compartilhando pelo Twitter fotos e vídeos sobre os protestos e abusos praticados pela polícia e instando os venezuelanos a resistir. Até mesmo criou um rap com um pedido de desculpas pela suposta ingerência de Cuba. A realidade econômica e política dos dois países continuam estreitamente entrelaçadas, um ano após a morte de Hugo Chávez, o aliado externo mais próximo a Fidel Castro.

Numa manifestação, o psiquiatra Carlos Rasquin, de 60 anos, empunhava um cartaz com as palavras "Não à cubanização". Por "cubanização", ele entende a repressão da atividade dissidente, a asfixia da iniciativa privada e a eliminação dos supostos inimigos do governo na sociedade civil. "Todo mundo sabe que os cubanos controlam o serviço de inteligência do Exército, o serviço de informações da polícia", afirmou, nas proximidades de dezenas de soldados antimotim, armados de espingardas, gás lacrimogêneo e cassetetes. Eles bloqueavam os manifestantes impedindo que se aproximassem dos edifícios do governo. "Eles controlam a coordenação das Forças Armadas."

'Vespas Negras'. Essa é a opinião dos críticos em ambos os países, embora eles não apresentem provas concretas de respaldo às suspeitas. Alguns oficiais da reserva venezuelanos afirmam que os cubanos participam da tomada de decisões das Forças Armadas, mas alguns manifestantes vão mais longe e veem a mão de Cuba em toda parte. Eles teriam reconhecido cubanos infiltrados nos protestos de rua. Segundo eles, a marca cubana está nas táticas das Forças Armadas venezuelanas. Além disso, os próprios manifestantes fariam circular pela internet notícias sem comprovação, alertando que as forças especiais cubanas, os Vespas Negras, estariam operando na Venezuela. "Pode-se perceber pelo sotaque", disse o engenheiro Rubén Izquierdo, acrescentando que cubanos estavam entre a multidão nas manifestações. "Eu vi. Eles dirigem a repressão."

Quando funcionários do governo pediram a investigação criminal da deputada da oposição, María Corina Machado, acusando-a de traição por apoiar os protestos, ela declarou: "É evidente para mim que foram os irmãos Castro que deram a ordem". Este mês, Bruno Rodríguez, ministro do Exterior cubano, fez um ataque direto à "interferência" na Venezuela pela Organização dos Estados Americanos e dos EUA, onde parlamentares como o senador Marco Rubio, republicano da Flórida, pediram uma ação mais rigorosa contra o governo venezuelano e acusaram Cuba de "exportar a repressão" para lá. Rubio, ferrenho defensor do embargo econômico americano a Cuba, apresentou uma lei com outros dois senadores, que autorizaria a concessão de novos recursos por um total de US$ 15 milhões no próximo ano, para programas de defesa dos direitos humanos e da sociedade civil na Venezuela e exigiria que Obama impusesse sanções a envolvidos em violações dos direitos humanos.

Os protestos na Venezuela inspiraram membros da oposição fragmentada e extremamente monitorada de Cuba, a aumentar o ativismo que, segundo alguns, tem sido bastante limitado na ilha. "Hoje, minha conta no Twitter é basicamente venezuelana", disse Orlando Luis Pardo Lazo, um blogueiro da oposição cubana nos EUA. Ele contou que mantém contato com membros da oposição venezuelana via Facebook e Twitter e gostaria de ver ações que indicassem solidariedade, como uma "flotilha da paz" ao largo da costa venezuelana. "É possível que o destino do castrismo esteja sendo jogado na Venezuela", afirmou Pardo. "O que não conseguimos derrubar em Cuba, talvez possamos derrubar lá."

O ressentimento da oposição venezuelana contra Cuba é em parte fruto de um acordo graças ao qual o seu país rico em petróleo envia anualmente para a ilha petróleo bruto no valor de US$ 4 bilhões. Em troca, Cuba manda milhares de médicos, dentistas, técnicos e treinadores de atividades esportivas para a Venezuela. Os críticos querem saber como é calculado o valor desses trabalhadores e destacam problemas em alguns dos programas sociais nos quais eles trabalham.

Médicos. Muitos nas camadas mais pobres da Venezuela elogiam a presença cubana, principalmente os médicos. "Gosto dos médicos cubanos", disse Arizay Vegas, enquanto aguardava para ser atendida numa clínica gerida por cubanos em Caracas. Ela lembrou que, cerca de um ano atrás, às 4 horas, teve de correr para a clínica porque sua neta de 2 anos caíra da cama. "Aqui o atendimento é rápido, e o tratamento é ótimo", acrescentou.

Quando o médico cubano encarregado da clínica pediu ao repórter que se retirasse porque não tinha autorização para entrevistar pacientes, Arizay ficou indignada. "Não estamos em Cuba, estamos na Venezuela", ela disse. "Eu tenho liberdade para falar com quem quiser".

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, elogia frequentemente os irmãos Castro em discursos públicos. Quando Chávez estava doente, foi se tratar do câncer em Cuba, onde fez uma cirurgia. E nas semanas que antecederam sua morte, no ano passado, Havana parecia quase ter se tornado a sede de fato do governo da Venezuela, porque vários funcionários de alto escalão iam para lá e realizavam na ilha as reuniões de gabinete.

Danilo Maldonado Machado, um grafiteiro cubano conhecido como El Sexto, espera vivamente que os protestos obriguem Maduro a sair, acabem com os subsídios de petróleo e mergulhem Cuba no caos econômico. "Estou convencido de que Maduro cairá", afirmou. Essa perspectiva preocupa muitos cubanos, que viveram anos de apagões e escassez punitiva depois do colapso da União Soviética.

Por outro lado, tudo é mera especulação: o governo parece estável, embora Maduro, eleito há cerca de um ano, afirme frequentemente que é ele o alvo de conspirações e de tentativas de golpe. Na terça-feira, o presidente informou que três brigadeiros foram presos e acusados de planejar um levante militar.

Para Berta Soler, líder das Damas de Branco, famoso grupo dissidente de Cuba, não se sabe quais serão as consequências dos acontecimentos da Venezuela para a ilha. "Teremos de encontrar o nosso caminho para seguirmos em frente", afirmou.

Apesar dos pontos em comum entre os dois países, a Venezuela está distante do grau de vigilância exercida pelo Estado que mantém os cubanos em constante tensão e permite que os funcionários da segurança farejem os protestos antes mesmo que os dissidentes saiam de suas casas, disseram analistas e membros da oposição. "Na Venezuela existe uma sociedade civil", afirmou Eugenio Yañez, um comentarista cubano, ex-acadêmico que mora em Miami. "A oposição cubana adoraria poder fazer o que as pessoas estão fazendo na Venezuela, mas não pode".

*Victoria Burnett e William Neuman são jornalistas.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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