REUTERS/Guadalupe Pardo
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Carta indica que García planejou suicídio no Peru

Procurador acredita que depoimento de ex-diretor da Odebrecht, previsto para a próxima semana, levou ex-presidente a se matar

Luiz Raatz, Enviado Especial a Lima

19 de abril de 2019 | 13h15
Atualizado 19 de abril de 2019 | 21h29

LIMA - O funeral do ex-presidente do Peru Alan García terminou nesta sexta-feira, 19, após dois dias de velório, com uma cerimônia de cremação e a leitura de uma carta-testamento que indica que o líder da Aliança Popular Revolucionária Americana (Apra) premeditou sua morte. 

Investigado por corrupção e lavagem de dinheiro nos desdobramentos da Operação Lava Jato no país, García, que presidiu o Peru por duas vezes, deu um tiro na cabeça ao receber uma ordem de prisão temporária em sua casa, em Lima, na quarta-feira.

Sua carta só veio a público nesta sexta. Foi lida pela filha, Luciana García Nores, em meio a centenas de militantes na Casa do Povo - sede do partido no centro de Lima. “Nossos adversários optaram por me criminalizar durante anos. Nunca encontraram nada. E agora os derrotei novamente”, escreveu. “Por muitos anos, me defendi de insultos e a homenagem dos meus inimigos era dizer que Alan García era inteligente o suficiente para que nada se prove contra ele.”

No texto, García diz ainda que sua missão foi levar a Apra ao poder em seus dois mandatos (1985-1990 e 2006-2011). Ele exalta seu legado político e cita obras feitas, principalmente no seu segundo governo. “Deixo a meus filhos a dignidade das minhas decisões. A meus companheiros, um sinal de orgulho. E meu cadáver como uma mostra de desprezo a meus adversários, porque cumpri a missão para a qual me dispus”, concluiu García.

Militantes e dirigentes da Apra veem na carta e no fato de García andar armado desde novembro - quando o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, recusou um pedido de asilo - um sinal de que ele tinha em mente o suicídio como resposta às investigações. No velório, aliados disseram que a atuação do Ministério Público peruano era parcial e patrocinada pelo governo do presidente Martín Vizcarra.

“Quando o asilo foi negado, ele já sabia o que ia acontecer. Passou a andar armado, sentindo que tentariam prendê-lo. Era uma decisão que já estava tomada”, disse ao Estado o dirigente da Apra Germán Luna, ao fim do velório.

Um procurador da força-tarefa da Lava Jato, ouvido pelo Estado em condição de anonimato, ligou o suicídio ao iminente depoimento de Jorge Barata, delator da Odebrecht no Peru. Barata deve falar com membros do MP a partir de segunda-feira, em Curitiba.

O procurador acredita que o depoimento poderia dar os indícios que faltavam para apresentar um pedido de prisão preventiva do ex-presidente à Justiça - o pedido de prisão temporária, que antecedeu sua morte, foi feito para evitar a fuga de García antes do depoimento de Barata.

García estava envolvido em três investigações da procuradoria peruana. A primeira, envolvia doações ilegais de campanha feitas pela Odebrecht, em 2006, no valor de US$ 200 mil. A segunda diz respeito a contratos superfaturados para a construção do metrô de Lima. Também é investigada uma palestra que o ex-presidente fez em 2012 na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), pela qual recebeu US$ 100 mil.

Analistas políticos peruanos acreditam que o último ato de García teve dois objetivos: jogar a população contra as investigações - que já levaram à prisão dois ex-presidentes e a líder da oposição - e fortalecer a Apra. “A tendência agora é a Apra tentar transformar García em um mártir e ganhar força à frente da oposição contra Vizcarra, que não tem uma base de apoio clara no Congresso”, disse o cientista político Arturo Maldonado.

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