Chip Somodevilla/Getty Images/AFP
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Em carta, deputados democratas pedem que Biden retire oferta para que Brasil seja parceiro da Otan

Congressistas defendem que Biden revogue a oferta ao Brasil devido ao 'retrocesso democrático que ocorreu no País sob a liderança do presidente Jair Bolsonaro'

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2021 | 19h34

Depois de uma manifestação semelhante no Senado, um grupo de 63 deputados democratas americanos enviou nesta quinta-feira, 14, uma carta ao presidente dos EUA, Joe Biden, pedindo que ele reavalie a oferta para que o Brasil possa se tornar um parceiro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A carta também pede que o presidente revogue a condição de aliado da Aliança concedida ao Brasil pelo governo de Donald Trump

Na carta, divulgada primeiro pela BBC Brasil, os deputados defendem que Biden revogue a oferta ao Brasil devido ao "retrocesso democrático que ocorreu no País sob a liderança do presidente Jair Bolsonaro, bem como sua pressão contínua pelo aumento do desmatamento e degradação ambiental da Amazônia", como explica um comunicado divulgado pelo site do deputado Hank Johnson. Ele é autor da carta assinada com outros 62 deputados, entre eles alguns expoentes da ala mais à esquerda do partido como Alexandria Ocasio-Cortez.  

A condição de aliado militar preferencial dado ao Brasil pode facilitar a compra de tecnologia e armamentos militares dos EUA, assim como garantir a participação das Forças Armadas brasileiras nos treinamentos promovidos pelo Pentágono, além de outros benefícios militares. 

Em setembro, senadores democratas enviaram uma carta ao governo Biden na qual demonstram preocupação com ataques do presidente brasileiro ao sistema eleitoral do País. No texto, os congressistas pediram que o secretário de Estado, Antony Blinken, deixasse claro que a relação entre EUA e Brasil estará em risco se Bolsonaro não respeitar o jogo democrático nas eleições presidenciais do ano que vem. O mesmo argumento foi apresentado na carta dos deputados.  

"Uma vez no poder, Bolsonaro passou a promulgar uma ampla gama de políticas que colocaram em perigo grupos minoritários vulneráveis, criaram taxas de desemprego historicamente altas, prejudicaram o meio ambiente, ameaçaram a democracia relativamente jovem do Brasil e levaram à morte desnecessária de centenas de milhares pela covid-19", afirma a carta.

Os congressistas pedem que Biden retorne às relações entre EUA e Brasil ao status pré-Trump até que um novo líder, segundo eles, mais alinhado com os valores democráticos e os direitos humanos, seja eleito no Brasil. Eles defendem que a aposentadoria do ex-embaixador americano em Brasília Todd Chapman representa uma oportunidade para colocar a relação entre os dois países no caminho certo. Segundo eles, Chapman mantinha uma "amizade pessoal problemática com Bolsonaro" e se recusou a encorajar publicamente o presidente brasileiro a proteger o meio ambiente, os direitos humanos e a democracia no País. 

Por fim, eles agradecem a iniciativa do governo Obama/Biden em apoiar a Comissão da Verdade entregando em mãos à então presidente Dilma Rousseff documentos confidenciais relacionados à ditadura militar no Brasil. 

Em agosto, quando o Conselheiro de Segurança Nacional, Jake Sullivan, esteve no Brasil, o respeito ao processo eleitoral brasileiro foi tema de encontro entre a comitiva brasileira e Bolsonaro. Em uma nova rodada da ofensiva americana para tentar barrar a entrada da chinesa Huawei no mercado 5G do Brasil, os americanos visitaram Brasília e acenaram com a possibilidade de estreitamento da cooperação militar entre os dois países. A oferta aconteceu, no entanto, em meio às investidas de Bolsonaro contra o sistema eleitoral vigente no País -- o que despertou reação negativa entre democratas.

Logo após Washington ressaltou que a conversa sobre a confiança dos americanos no sistema eleitoral brasileiro foi parte importante do encontro com Bolsonaro. 

Com frequência, democratas do Congresso pressionam o governo americano a manter distanciamento do governo Bolsonaro e a romper relações com o presidente do Brasil em razão da posição do brasileiro sobre direitos de minorias, meio ambiente e democracia. As cartas que têm Bolsonaro como alvo tiveram início ainda na campanha eleitoral de 2018 e só se intensificaram.

Desde a eleição de Joe Biden, no entanto, a reclamação dos democratas tem mais força junto ao governo americano, comandado por um presidente também democrata.

O posicionamento do governo americano tem sido de pragmatismo. Biden evita aproximar-se de Bolsonaro -- os dois nunca conversaram por telefone -- e sabe que qualquer contato seria mal visto entre democratas do partido e junto à base da legenda. O alto escalão de seu governo, no entanto, mantém diálogo aberto com o time de Bolsonaro./COLABOROU BEATRIZ BULLA  

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