Em cartas, Charles dá palpites ao governo

Após briga judicial, jornal britânico 'Guardian' teve acesso a correspondências do herdeiro

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2015 | 02h02

Cartas assinadas pelo príncipe Charles, enviadas ao primeiro-ministro e a autoridades do Executivo e do Parlamento revelam as tentativas da monarquia de influenciar nas decisões do poder na Grã-Bretanha. As 27 correspondências foram obtidas pelo jornal The Guardian, com aval da Justiça, depois de quase dez anos de batalhas nos tribunais.

Os documentos, revelados por ordem da Corte Suprema na quarta-feira, são parte da correspondência mantida pelo príncipe Charles com autoridades de Estado entre os anos de 2004 e 2005, quando o trabalhista Tony Blair exercia o cargo de primeiro-ministro da Grã-Bretanha.

O segredo foi rompido porque os juízes do tribunal aceitaram o pedido do jornal, que solicitava acesso aos documentos com base na Lei de Liberdade de Informação. Atendendo aos magistrados, o governo publicou as correspondências em seu site oficial.

As cartas mostram a intimidade do herdeiro do trono com o centro do poder e sua preocupação em direcionar desde questões militares até arquitetura urbana, o que, de acordo com republicanos e críticos da monarquia, estaria em contradição com o papel neutro que a família real deve ter em relação às decisões de Estado.

O príncipe de Gales aparece nas correspondências fazendo pedidos a sete ministros do governo e se dirigindo a Blair com a intimidade de amigos.

"Caro primeiro-ministro, eu tive grande prazer em recebê-los todos os dois em Birkhall (sua residência privada) para o chá no último fim de semana e em discutir sobre diferentes temas", diz o príncipe em uma correspondência ao premiê. "Creio que poderia ser útil que, como de hábito, eu os expresse em papel."

Temas como a guerra do Iraque, então em curso, e os equipamentos das Forças Armadas estavam na pauta. Em uma das correspondências obtidas pelo jornal, o príncipe Charles reclama, em 2004, diretamente a Blair sobre a performance ruim dos helicópteros Lynx quando submetidos ao calor dos desertos do Iraque em situações de combate.

Além disso, o herdeiro de Elizabeth II comenta a falta de "meios necessários" para substituição dos equipamentos.

Em geral, as preocupações de Charles dizem respeito a temas mais leves, como a qualidade da alimentação dos estudantes de Gloucestershire do Sul ou a defesa dos animais.

Suas posições ambientalistas são reveladas pela sua intervenção em diversas cartas que falam, por exemplo, sobre o risco de extinção do texugo europeu, uma espécie de mamífero comum na Grã-Bretanha, ou ainda dos albatrozes da Patagônia, região na qual ele também demonstra preocupação com a pesca ilegal.

"Se o comércio não for interrompido, haverá pouca esperança aos pobres e velhos albatrozes, pelos quais eu continuarei a fazer campanha", adverte Charles, afirmando se tratar uma de suas "prioridades".

Apesar do conteúdo até certo ponto inocente das correspondências, o governo de David Cameron prepara alterações na legislação britânica para garantir o princípio de intimidade e assegurar que novas correspondências não sejam trazidas à tona no futuro.

Em nota, a assessoria do príncipe Charles lamentou a decisão da Justiça, mas tirou proveito do conteúdo para afirmar que as cartas demonstram que o herdeiro do trono "se preocupa profundamente com seu país" e "tenta se valer de sua posição única para ajudar o próximo".

Vitória. Ativistas pela liberdade de informação elogiaram a divulgação e chamaram este de um "momento significativo". "A divulgação das memórias de Charles representa uma grande vitória no processo de liberdade de informação, mostrando que as autoridades não podem impedir as divulgações simplesmente porque não gostam do resultado", disse Maurice Frankel, diretor da Campanha pela Liberdade de Informação britânica, segundo o New York Times.

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