Genya Savilov/AFP
Genya Savilov/AFP

Em Chernobyl, cientistas avaliam desastre causado por incêndios

Em abril, dois grandes incêndios devastaram área de mata que circunda a antiga usina; fogo foi interrompido a menos de 2 km do reator

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2020 | 13h39

"Esta floresta não renascerá", diz o cientista Oleksandre Borsuk, enquanto vagueia pela terra amarelada entre troncos de pinheiro carbonizados e o cheiro de queimado na zona de exclusão ao redor da usina nuclear de Chernobyl, após incêndios consumirem a vegetação durante a primavera. O fogo devastou um quarto da área de mata, de acordo com Borsuk, um dos responsáveis pela reserva natural que ocupa a maior parte do vasto território.

A área, que circunda um perímetro de 30 km da antiga usina, está praticamente abandonada. Cenário do pior acidente nuclear da história, em 1986, a vegetação ainda está contaminada pela radiação. O local só voltou a chamar atenção em abril, quando dois incêndios gigantescos queimaram a mata e só foram contidos a menos de dois quilômetros da cúpula que sela o reator.

Apesar da quantidade de matéria orgânica contaminada sendo queimada, os incêndios perto de Chernobyl não provocaram nenhum risco novo de radiação. No entanto, a queimada tornou o ar de Kiev o mais poluído do mundo durante períodos do mês de abril.

Mesmo com os esforços de centenas de bombeiros, mais de 66 mil hectares de terra - um quarto da zona de exclusão - incluindo 42 mil hectares de floresta, foram queimados. Esta semana, as autoridades abriram o acesso aos territórios afetados pela primeira vez.

"Foi o maior incêndio desde o acidente de 1986", diz Denys Vyshnevsky, cientista responsável da reserva. Segundo as autoridades ucranianas, o desastre não aumentou a radioatividade, mas causou um duro golpe no ecossistema local, que estava se recuperando do desastre nuclear que causou a evacuação de centenas de milhares de habitantes e a suspensão da maioria das atividades humanas.

O incêndio foi iniciado, segundo a polícia, por um jovem que mora perto da área de Chernobyl, que disse ter queimado grama por "diversão". Mas os cientistas também apontam as mudanças climáticas, que causaram um inverno quente e seco, uma vez que apenas 63% da chuva habitual caiu, o que criou condições favoráveis para a propagação do fogo.

"No futuro, essas mudanças climáticas serão uma ameaça para nós", alerta Vyshnevsky. "Será necessário reorganizar o sistema de observação, prevenção e reação a emergências para esse tipo de incêndio, que é mais típico nos Estados Unidos ou sul da Europa", alerta.

Fechado por muitos anos, este lugar tornou-se nos últimos anos uma atração turística que atrai milhares de visitantes de todo o mundo.

Calor e seca

"As florestas de pinheiros foram as que mais sofreram", explica Borsuk. Afetadas pelas temperaturas que atingiram entre 700 e 800 °C pelas chamas, essas árvores de 30, 40 e até 90 anos continuarão morrendo por dois ou três anos.

Embora a vegetação volte a crescer, os pinheiros serão naturalmente substituídos por árvores com folhas (bétulas, choupos) mais resistentes às chamas, explica o cientista, que garante que o fogo também destruiu uma dúzia de aldeias abandonadas.

A fauna também foi afetada. Animais como lobos, alces ou linces conseguiram fugir, mas pequenos mamíferos, como lebres ou répteis como cobras, morreram, explica Vyshnevsky. No entanto, após os incêndios, "observamos tendências positivas" e animais e pássaros retornam aos territórios afetados, acrescenta o biólogo./ AFP

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