Em cidade jordaniana, guerra síria inspira sonhos jihadistas

Certo dia, Abu Abdullah deixou sua vida para trás. Abandonou a mulher e os dois filhos - além de um modesto negócio de comidas congeladas - e infiltrou-se pela fronteira síria para se juntar a uma organização ligada à Al-Qaeda. Ele viveu entre explosões e tiroteios, regozijando com o sentimento de servir ao que considerava uma causa celestial. Mas a angústia de sua mulher logo o convenceu a voltar para a cidade de Zarqa, onde sente saudade dos dias como jihadista. "Se pudesse voltar e fazer tudo de novo, eu voltava. Aqueles foram os três melhores meses de minha vida", disse.

CENÁRIO: Ben Hubbard / NYT, O Estado de S. Paulo

26 de abril de 2014 | 20h33

Na cidade natal de Abu Musab Zarqawi, que se tornou infame por seu reinado sangrento como líder da Al-Qaeda nos primeiros anos da ocupação americana no Iraque, a guerra cada vez mais sectária na Síria incendiou a comunidade militante, inspirando a maior mobilização jihadista jamais vista na cidade.

Analistas e islamistas jordanianos estimam que entre 800 e 1,2 mil jordanianos partiram para lutar na Síria, mais que o dobro dos que combateram no Afeganistão ou no Iraque. Embora os combatentes procedam de toda Jordânia, um terço partiu de Zarqa, a maior proporção entre todas as regiões do país.

A maioria dos combatentes desapareceu sem contar nada para suas famílias, ressurgindo do outro lado da fronteira como integrante da Frente Nusra, afiliada da Al-Qaeda na Síria, ou do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, uma dissidência da Al-Qaeda. Enquanto alguns são analfabetos e pobres, outros têm formação universitária e deixam para trás empregos, casas, carros, mulheres e filhos por uma causa que acreditam que lhes trará recompensas no céu.

Para a maioria, é uma viagem sem retorno, seja porque voltar para casa significaria uma pena de prisão, seja porque morrem no exterior. Quase toda a semana, uma família de Zarqa realiza um "casamento de mártir", assim chamado porque alcançar o martírio não é visto como motivo de tristeza, mas de encontro e celebração.

Apesar de analistas dizerem que a estagnação política e econômica da Jordânia encoraja homens devotos, marginalizados, a buscar a glória em campos de batalha no exterior, líderes, combatentes e seus parentes islâmicos descrevem decisões tomadas por uma convicção intensa.

Muitos são impelidos pela extrema violência do governo sírio e o sentimento de que o mundo não está fazendo nada para contê-la. Ao mesmo tempo, eles veem a Síria como uma plataforma de lançamento para seu projeto de apagar as fronteiras da região, fundar um Estado muçulmano e impor as regras da sharia (a lei islâmica).

"Não existe isso de Síria para os sírios", disse Munif Samara, um médico e respeitado islamista em Zarqa. Samara, que conhece muitos jordanianos em luta na Síria, disse que não desencorajaria o próprio filho, estudante de odontologia, de ir para a Síria. "Quanto tempo vivemos?", perguntou. "Eu lhe dou o mundo ou a vida eterna?"

Para esclarecer por que homens da região lutam na Síria, Samara montou uma reunião na sua clínica com jornalistas e Abu Abdullah. Depois do início do conflito na Síria, as imagens pavorosas na TV e preocupações com a disseminação da influência iraniana levaram Abdullah à jihad. Ele telefonava com frequência para casa e, depois de ouvir as queixas da mulher de que sua filha de 8 anos estava perturbada com sua ausência, decidiu retornar.

Em muitos casos, as partidas súbitas dos combatentes afetam profundamente suas famílias, deixando muitas delas dilaceradas entre o apoio à causa e o lamento de sua perda pessoal.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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