Em cidade jordaniana, guerra síria inspira sonhos jihadistas

CENÁRIO: Ben Hubbard / NYT

O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2014 | 02h07

Certo dia, Abu Abdullah deixou sua vida para trás. Abandonou a mulher e os dois filhos - além de um modesto negócio de comidas congeladas - e infiltrou-se pela fronteira síria para se juntar a uma organização ligada à Al-Qaeda. Ele viveu entre explosões e tiroteios, regozijando com o sentimento de servir ao que considerava uma causa celestial. Mas a angústia de sua mulher logo o convenceu a voltar para a cidade de Zarqa, onde sente saudade dos dias como jihadista. "Se pudesse voltar e fazer tudo de novo, eu voltava. Aqueles foram os três melhores meses de minha vida", disse.

Na cidade natal de Abu Musab Zarqawi, que se tornou infame por seu reinado sangrento como líder da Al-Qaeda nos primeiros anos da ocupação americana no Iraque, a guerra cada vez mais sectária na Síria incendiou a comunidade militante, inspirando a maior mobilização jihadista jamais vista na cidade.

Analistas e islamistas jordanianos estimam que entre 800 e 1,2 mil jordanianos partiram para lutar na Síria, mais que o dobro dos que combateram no Afeganistão ou no Iraque. Embora os combatentes procedam de toda Jordânia, um terço partiu de Zarqa, a maior proporção entre todas as regiões do país.

A maioria dos combatentes desapareceu sem contar nada para suas famílias, ressurgindo do outro lado da fronteira como integrante da Frente Nusra, afiliada da Al-Qaeda na Síria, ou do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, uma dissidência da Al-Qaeda. Enquanto alguns são analfabetos e pobres, outros têm formação universitária e deixam para trás empregos, casas, carros, mulheres e filhos por uma causa que acreditam que lhes trará recompensas no céu.

Para a maioria, é uma viagem sem retorno, seja porque voltar para casa significaria uma pena de prisão, seja porque morrem no exterior. Quase toda a semana, uma família de Zarqa realiza um "casamento de mártir", assim chamado porque alcançar o martírio não é visto como motivo de tristeza, mas de encontro e celebração.

Apesar de analistas dizerem que a estagnação política e econômica da Jordânia encoraja homens devotos, marginalizados, a buscar a glória em campos de batalha no exterior, líderes, combatentes e seus parentes islâmicos descrevem decisões tomadas por uma convicção intensa.

Muitos são impelidos pela extrema violência do governo sírio e o sentimento de que o mundo não está fazendo nada para contê-la. Ao mesmo tempo, eles veem a Síria como uma plataforma de lançamento para seu projeto de apagar as fronteiras da região, fundar um Estado muçulmano e impor as regras da sharia (a lei islâmica).

"Não existe isso de Síria para os sírios", disse Munif Samara, um médico e respeitado islamista em Zarqa. Samara, que conhece muitos jordanianos em luta na Síria, disse que não desencorajaria o próprio filho, estudante de odontologia, de ir para a Síria. "Quanto tempo vivemos?", perguntou. "Eu lhe dou o mundo ou a vida eterna?"

Para esclarecer por que homens da região lutam na Síria, Samara montou uma reunião na sua clínica com jornalistas e Abu Abdullah. Depois do início do conflito na Síria, as imagens pavorosas na TV e preocupações com a disseminação da influência iraniana levaram Abdullah à jihad. Ele telefonava com frequência para casa e, depois de ouvir as queixas da mulher de que sua filha de 8 anos estava perturbada com sua ausência, decidiu retornar.

Em muitos casos, as partidas súbitas dos combatentes afetam profundamente suas famílias, deixando muitas delas dilaceradas entre o apoio à causa e o lamento de sua perda pessoal. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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