Jim Young/Reuters
Jim Young/Reuters

Em clima polarizado, democratas fazem convenção para 'salvar legado' de Obama

Partido precisa reenergizar base, convencer indecisos e combater rivais que rejeitam políticas do governo

Pablo Uchoa, BBC

04 de setembro de 2012 | 07h42

CHARLOTTE, CAROLINA DO NORTE, EUA - O partido democrata dos EUA dá início nesta terça-feira, 4, à sua convenção em Charlotte, na Carolina do Norte, com a árdua tarefa de ganhar o voto de confiança dos eleitores para mais quatro anos de governo do presidente Barack Obama - em meio a desilusões, críticas e uma economia ainda em marcha lenta. Pelos próximos três dias, o partido escalou uma equipe de oradores que inclui o ex-presidente Bill Clinton, a primeira-dama, Michelle Obama, e o prefeito da cidade de San Antonio, no Texas, Julián Castro - o primeiro hispânico a fazer o discurso de abertura do evento.

 

Veja também:

linkQuestões raciais e de gênero marcam encontro

linkApesar de pobreza, Charlotte é centro financeiro

blog RADAR GLOBAL: Chuck Norris dá apoio a Romney

 

Mais que tentar renovar o discurso da "esperança e mudança" que elegeu Obama em 2008, o partido usará o evento como uma oportunidade crucial de tentar preservar o que enxerga como o seu legado dos últimos quatro anos. Sem uma vitória nas urnas no dia 6 de novembro, o risco para os democratas é ver demolidas algumas das medidas mais caras ao governo Obama no seu primeiro mandato, como a lei de acesso à saúde, o principal alvo da oposição republicana.

Se a rejeição dos republicanos às políticas de Obama na área da saúde, imigração, impostos e assistência social sempre foi frontal, ficou ainda mais incisiva depois da convenção republicana que apontou oficialmente Mitt Romney e Paul Ryan como candidatos rivais de Obama. "É uma eleição em um momento muito crítico", avalia a pesquisadora Karen Dole, do Institute of Policy Studies, um centro de pesquisas sobre políticas públicas em Washington. "Com Obama e Romney, você tem exemplos fortes de duas visões muito diferentes para o futuro desse país."

Para Dole, de um lado, Obama propõe uma sociedade que "não abandona o individualismo" mas atribui ao governo o papel de "garantir que os que têm menos entre nós não fiquem numa situação pior e não possam se beneficiar da mobilidade social". "Por outro lado, com Romney, há uma visão que é exclusivamente individualista e uma rejeição explícita a que o governo ajude quem quer que não esteja no 1% mais rico da sociedade."

Polarização

A descrição apenas atesta o clima de polarização política em que o país está imerso, o que deu origem a uma campanha eleitoral na qual a tática mais amplamente usada tem sido a do medo. Mas para Herbert London, presidente emérito do Instituto Hudson, uma organização conservadora com sede em Washington, "as tentativas de ambos os lados de assustar (os eleitores) levaram a uma espécie de cinismo entre o povo americano". "Os democratas vão aproveitar a convenção para dizer que não tiveram tempo suficiente de governo", opina. "Vão dizer que há uma estratificação de classes nos Estados Unidos e que precisam de mais tempo para mudar as características do país."

London observou que para rejeitar a reforma da saúde aprovada em 2010 por Obama - plano que tem entrado em vigor aos poucos até 2014 - os republicanos precisam ganhar o Senado. Para ele, o ponto fraco dos democratas é a economia: "a alta taxa de desemprego, as incertezas na economia e o aumento da nossa dívida em cerca de US$ 5,5 trilhões nos últimos quatro anos". O especialista vê estes fatores como sinais de que os democratas "não conseguiram prover liderança adequada no campo econômico". "Há uma série de incertezas, que levam ao descontentamento, que leva ao desejo pela mudança."

Vantagens e desafios

Um lembrete desta fragilidade virá na sexta-feira, quando saem os números oficiais do desemprego de agosto - apenas horas depois da atração principal de Charlotte, o discurso de Obama já oficialmente como candidato. Analistas esperam que o número permaneça em 8,3% - acima dos 8% que muitos consideram a linha entre um presidente se eleger ou não se eleger.

A falta de oportunidades entre os mais jovens, negros e hispânicos é ainda mais alta, e estes são grupos cujos votos foram cruciais para a vitória de Obama em 2008. Apesar destas dificuldades, os democratas acreditam que é possivel reenergizar a sua base e cativar os indecisos - cerca de 8% do eleitorado. A seu favor, Obama conta com o fato de que a melhora de Romney nas pesquisas observada após a convenção republicana já dá sinais de ter se esgotado.

Uma tradicional sondagem do instituto Gallup realizada após as convenções dos partidos indicou que, entre os eleitores independentes, 36% disseram que o evento republicano deste ano os deixou mais inclinados a votar por Romney. Já 33% disseram estar menos inclinados - um empate técnico. Entre os eleitores em geral, o percentual de respostas foi 40% a 38% - um ganho líquido de 2 pontos percentuais para Romney. Para efeito de comparação, a convenção republicana deu a Obama uma "intenção líquida" de 14 pontos.

Efeito limitado

Mas desta vez é praticamente unanimidade entre os analistas que a fragilidade econômica e as desilusões com o primeiro mandato de Obama devem limitar o poder de oratória do presidente. Sintetizando a opinião de muitos grupos de esquerda em relação ao primeiro mandato de Obama, Karen Dole diz que o presidente "teve um bom desempenho ao lutar para salvar alguns dos programas sociais e por entender que o seguro-desemprego precisa ser estendido em um momento de alto desemprego". "Mas ficamos mais decepcionados com seu histórico de cortes de gastos militares, a demora em encerrar as guerras, o fato de que ele continuou as violações de direitos civis da era Bush, e por não agir de forma rápida e suficiente para criar empregos públicos. Para nós, são resultados mistos."

 

BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.