Carlos Garcia Rawlins|Reuters
Carlos Garcia Rawlins|Reuters

Em colapso, Venezuela adota cestas alimentares

Programa do governo tenta amenizar falta de produtos básicos; sistema é criticado

Claudia Müller, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2016 | 03h00

A inflação galopante e a escassez de produtos da cesta básica fizeram com que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciasse um programa de distribuição de comida para tentar amenizar os efeitos da crise e a queda de sua popularidade. A medida, no entanto, é criticada por seu alto custo e pela falta de investimento na produção local. 

Os produtos serão entregues de porta em porta para os beneficiários de programas sociais, por meio dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (Clap). As cestas custam de 1 mil a 3 mil bolívares – um custo baixo diante da atual situação dos venezuelanos, que recebem ao menos 33.636 bolívares de salário mínimo e auxílio refeição (cerca de US$ 1,5 mil na menor taxa de câmbio oficial, mas apenas US$ 35 no câmbio paralelo), valor insuficiente para compra de alimentos não subsidiados.

Durante os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, começou um processo de expropriação de fábricas de alimentos e de áreas para criação de gado e terras para cultivo. Muitos desses projetos não deram certo porque produziam abaixo da capacidade. Como o governo lucrava muito com o petróleo, começou a importar comida. 

Com a queda do valor do barril, Maduro decidiu congelar os preços dos produtos em plena alta da inflação, o que levou à falência produtores locais e, consequentemente, à escassez de alimentos. O sistema de distribuição anterior, por meio de supermercados estatais, entrou em colapso. Por isso, o governo decidiu implantar esse novo programa de entrega. “O problema não está na distribuição em si, mas na produção e, sobretudo, na falta de poder aquisitivo”, avalia o professor de economia da Universidade Central da Venezuela, Leonardo Vera.

Para o cientista político José Vicente Carrasquero, o problema da medida também é a responsabilidade das Clap. “Todas as redes de comercialização e distribuição de alimentos nas mãos do governo têm dado lugar a corrupção e fraude”, afirma. No começo do ano, funcionários da administração da rede de supermercados estatais Bicentenário foram presas pelo desvio de produtos subsidiados pelo governo. Em 2010, durante o governo Hugo Chávez, descobriu-se que cerca de 150 mil toneladas de alimentos foram perdidas por uma empresa importadora controlada pelo governo.

Atualmente, a gerência da maioria dessas empresas foi transferida para os militares. O governo atribui os problemas a uma “guerra econômica” orquestrada por indivíduos dentro e fora da Venezuela para derrotar o chavismo. 

Segundo Carrasquero, entretanto, o problema deve continuar. “É um projeto político-partidário condenado a fracassar, basicamente porque se está delegando o processo de distribuição a organizações de bairro que cairão rapidamente em corrupção e nepotismo”, explica. 

A diretora da Fundação Bengoa para Alimentação e Nutrição, Maritza Landaeta, também acredita que o programa deve fracassar. “Não há como sustentá-lo, é uma fonte de corrupção, com alimentos vencidos ou prestes a vencer, sem controle de qualidade e sem o cumprimento das regras mínimas para o transporte”, afirma. 

O economista Leonardo Vera acredita que o governo gastará cerca de US$ 5 bilhões por ano com a importação. “Cerca de 96% das exportações da Venezuela são petróleo. Mais do que nunca, nos tornamos um país monoexportador”. Atualmente, o preço do barril venezuelano está em cerca de US$ 30, bem abaixo dos US$ 88 de dois anos atrás. Segundo Vera, o país recebe US$ 25 bilhões por ano, mas precisa de, pelo menos, US$ 40 bilhões.

Política. Ao anunciar o projeto de distribuição de alimentos, o governo o chamou de “Revolução Econômica”. Para a pesquisadora do Centro de Estudos de Desenvolvimento da Universidade Central da Venezuela, Marianella Herrera Cuenca, a revolução necessária deve buscar o crescimento econômico e o progresso social. “Esses elementos não são contrários, são complementares, já que um bom desenvolvimento econômico apoiará o desenvolvimento social que todos os venezuelanos merecemos”, ressalta. 

Além da população, os produtores locais também estão sendo prejudicados pela competição com produtos importados. “A maior parte dos produtos tem preços regulados pelo governo, então, os produtores devem vender uma cota da produção por preços irrisórios e sem controle da distribuição”, explica Vera. O governo venezuelano também se tornou dono, por meio de expropriação e intervenção, de mais da metade de diversos setores ligados à produção de alimentos, como usinas de pasteurização de leite, de processamento de farinhas, de refinarias de açúcar e afins. 

Escassez. Segundo a mais recente Pesquisa sobre Condições de Vida na Venezuela, 12,1% da população faz duas refeições ou menos por dia – 40% desses estão no grupo dos mais pobres do país. Além disso, carne, peixe, leite e feijão são consumidos apenas por uma minoria. O restante se alimenta basicamente de farinhas, arroz, pão e gorduras. 

“É possível comprar frango, com preço tabelado, após ficar cerca de 12 horas na fila do supermercado”, afirma a coordenadora da pesquisa, Maritza Landaeta. Segundo ela, pessoas ficam o dia inteiro em filas e passam por vários tipos de humilhação, maus-tratos e violência. O estudo foi realizado pela Universidade Católica Andrés Bello, Universidade Central da Venezuela, Universidade Simón Bolívar e pela Fundação Bengoa.

O alto consumo de gorduras é uma questão metabólica. “É uma dieta de sobrevivência. A gordura consegue compensar a deficiência calórica e promove sensação de saciedade”, explica a pesquisadora Marianella Herrera Cuenca, também responsável pelo levantamento. Além disso, cerca de 81% dos cidadãos são considerados pobres e 87% dizes não ganhar o suficiente para comprar alimentos. 

A pesquisa também mostrou que o custo de comer fora de casa, de 2014 para 2015, subiu em até 497%. Na avaliação de Marianella, uma solução para a crise de escassez é aceitar ajuda internacional. “Precisamos cuidar dos grupos vulneráveis, como grávidas e crianças menores de 5 anos, para protegê-los nos períodos críticos do crescimento e desenvolvimento e evitar um dano maior às futuras gerações”, afirma. 

O economista Leonardo Vera também acredita na necessidade de receber recursos do exterior, além de aumentar a importação de insumos, matérias-primas e o que mais for necessário para os produtores locais. “O país precisa de uma revolução econômica, mas certamente em outra direção.”

 

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