Telesur / AFP
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Em 10.ª conferência nacional, Farc discutem pela primeira vez a paz

Guerrilha se reúne a partir do dia 17 para debater o acordo feito com o governo colombiano e os rumos do grupo como partido político

O Estado de S. Paulo

15 de setembro de 2016 | 18h21

Pela primeira vez em seus 52 anos de história, a guerrilha colombiana das Farc, a principal e mais antiga da América Latina, se reunirá em sua conferência nacional, principal instância deliberativa, para discutir a paz, e não a guerra.

De 17 a 23 de setembro, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) realizarão sua 10.ª Conferência Nacional Guerrilheira em Caguán, seu tradicional reduto no sudeste da Colômbia, para debater o acordo de paz alcançado com o governo do presidente Juan Manuel Santos após quase quatro anos de negociações em Cuba.

"Será um evento democrático que deve apontar a rota a seguir", escreveu no Twitter Rodrigo Londoño Echeverri, conhecido como Timochenko, comandante máximo da guerrilha nascida após uma revolta camponesa em 1964 que, segundo estimativas oficiais, teria quase sete mil combatentes armados.

Ao chegar esta semana à região do encontro em um helicóptero do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), o líder guerrilheiro destacou a importância da conferência, que ao contrário das anteriores não acontece na clandestinidade, e sim com o aval das autoridades e aberta à imprensa. "Tudo o que estamos fazendo agora vai nos ajudar muito para avançar na busca dos objetivos que temos", disse.

O encontro na remota localidade de El Diamante, a guerrilha deve não apenas referendar os acordos de Havana, mas também iniciar a transformação das Farc em um movimento político legal, segundo o texto da convocação. "Nas outras conferências se falava de planos em projeção para a guerra. Esta conferência está articulando processos e iniciativas para a paz, para o aprofundamento da democracia na Colômbia", disse o comandante guerrilheiro Pastor Alape.

Simbologia. Quase 200 delegados, incluindo os 29 integrantes do Estado-Maior Central, além de representantes da guerrilha eleitos nas assembleias de base, devem se pronunciar sobre o fim do conflito que envolveu outras guerrilhas, paramilitares e agentes do Estado, com um balanço de 260 mil mortos, 45 mil desaparecidos e 6,9 milhões de deslocados.

Aquela que deve ser a última conferência das Farc como um grupo armado contará com 50 convidados e terá cobertura de quase 350 meios de comunicação credenciados, informaram os organizadores.

As deliberações acontecerão a portas fechadas em uma estrutura de tijolos e com junco no teto, que os guerrilheiros lutam contra o tempo para terminar, segundo um vídeo divulgado pelas Farc no Twitter. "Quase 90% das Farc concordam com o acordo. Basicamente significa que na conferência eles têm 10% para convencer", disse o analista Ariel Avila, da Fundação Paz e Reconciliação.

O cientista político Frédéric Massé espera a aprovação na totalidade do que foi acordado em Havana, que estipula, entre outras coisas, o desarmamento dos guerrilheiros e sua reinserção na vida civil, o sistema de justiça ao qual poderão recorrer e seu compromisso para indenizar as vítimas. "Não acredito que exista alguma dúvida sobre isso, mas é um fato simbolicamente muito importante", disse o professor, mas sem esquecer alguns desafios para as Farc, que já protagonizaram três tentativas de paz frustradas em 1984, 1991 e 1999.

Constituinte. Os comandantes da guerrilha não apenas terão de garantir a coesão interna, que, com a assinatura da paz pode sofrer deserções e experimentar divergências, como também deverão explicar aos mais radicais os alcances e limites do que está sendo negociado. "Esses acordos não são muito revolucionários, há transformações de fundo, mas não vão mudar a Colômbia", declarou Massé, que não descarta que ressurja a insistência das Farc de convocar uma Assembleia Nacional Constituinte para tentar promover as ideias que não abandonou.

Para entrar em vigor, o pacto negociado entre o governo e as Farc deverá ser aprovado em um plebiscito convocado para 2 de outubro. Mas antes, o presidente Juan Manuel Santos e Timochenko selarão o acordo em 26 de setembro, em uma cerimônia em Cartagena, na presença de vários líderes estrangeiros. /AFP

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