Henry Romero
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Em crise, Equador adapta chavismo ao livre-comércio

Êxito de pacto comercial com a União Europeia mostra que Correa se afasta da Venezuela em questões econômicas

Cristiano Dias ENVIADO ESPECIAL / QUITO, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2017 | 05h00

O PIB do Equador encolheu 1,7% em 2016. Não dá para disfarçar: a economia está em crise e virou tema da eleição presidencial de domingo. À primeira vista, a recessão repete a mesma cantilena venezuelana, um modelo social de caráter distributivo que chegou ao limite após a queda do preço do petróleo. Mas a saída encontrada pelo governo equatoriano mostra a distância que o separa do chavismo, pelo menos em questões econômicas.

No primeiro dia do ano, entrou em vigor o tratado de livre-comércio entre Equador e União Europeia, resultado de um esforço diplomático de nove anos de Quito. O acordo afasta o presidente Rafael Correa do corolário chavista e mostra que a aposta no bilateralismo pode dar resultados rápidos - o Mercosul, por exemplo, negocia um acordo parecido desde 1999.

Na quarta-feira, o Ministério do Comercio Exterior equatoriano informou os resultados da balança comercial de janeiro, os primeiros números após o tratado entrar em vigor.

As exportações para a UE cresceram 15% com relação ao mesmo período do ano passado, injetando US$ 257 milhões na economia equatoriana. Segundo o ministro Juan Carlos Cassinelli, o governo ainda espera um crescimento até o fim do ano de 25% nas vendas de 150 produtos para a Europa. 

Em contrapartida, Cassinelli estima que produtos europeus, que tiveram tarifa de importação zerada, fiquem até 45% mais baratos para o consumidor local. “Correa é mais pragmático do que muita gente pensa”, disse ao Estado o economista Santiago García Álvarez, da Universidade Central do Equador. Segundo ele, com o tratado, o equatoriano pagará menos por computadores, bebidas, cosméticos e automóveis - o preço de um carro popular pode chegar a US$ 14 mil (cerca de R$ 50 mil). Em sete anos, a taxa de importação de veículos deve cair a zero. 

“Correa sempre foi contra o livre-comércio, mas desta vez foi sensato”, afirma José Antonio Camposano, presidente da Câmara Nacional de Aquacultura, a associação dos produtores de camarão do Equador, atividade econômica que mais cresce no país - em média 10% ao ano. “Ele conseguiu um acordo de liberalização comercial que preservou, ao mesmo tempo, alguns setores da indústria nacional.”

Dolarização. O grande trauma do Equador ainda é a inflação. Em 2000, diante da crise crônica, o então presidente Jamil Mahuad resolveu acabar com a moeda nacional, o sucre, e adotar o dólar americano. A dolarização proporcionou estabilidade cambial, mas aumentou a vulnerabilidade externa e limitou a capacidade de o governo realizar uma política monetária.

“Não temos moeda”, diz Camposano. “Nossos vizinhos podem promover uma desvalorização cambial para aumentar a competitividade de seus produtos, enquanto nós jogamos com as mãos amarradas. Correa percebeu que não tinha saída, que o livre-comércio era a única ferramenta para aumentar nossa competitividade.”

Mesmo dependendo do humor do dólar, ninguém no Equador tem saudade da penúria dos tempos do sucre. A crise de 2000 fez mais de 3 milhões de equatorianos abandonarem o país para tentar a sorte nos EUA ou na Europa. Os vilões da história? O presidente Mahuad e sua equipe econômica. Na época, quem fazia parte do time era Guillermo Lasso, hoje o nome da oposição na disputa de domingo pela presidência contra Lenín Moreno, candidato ungido por Correa. 

Quando o assunto é exílio econômico, é natural que a revolta dos expatriados seja contra o governo atual, como ocorre na Venezuela. Quem abandonou o país em busca de uma vida melhor, detesta o chavismo. No Equador ocorre o oposto. Muitos ligam Lasso à crise de 2000. Isto explica a péssima votação do candidato da oposição entre a diáspora - Moreno obteve mais do que o dobro dos votos vindos de fora (37% a 18%). 

“É claro que o Equador tem semelhanças com a Venezuela, mas não são tantas assim”, disse García. “Correa tem um caráter autoritário, está sempre em pé de guerra com a imprensa e busca se perpetuar no poder.” Mas, lembra o economista, as maiores diferenças entre os dois países estão na área econômica.

Apesar de ambos serem membros da combalida Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), os equatorianos são bem menos dependentes do produto. Enquanto o petróleo bruto representa mais de 90% das receitas do governo venezuelano, García calcula que no Equador o total não passe de 30% - segundo ele, 70% das receitas vêm de tributos e de outros setores agroexportadores. 

Nos últimos dez anos, a pobreza diminuiu, os índices de educação melhoraram e parte da infraestrutura foi renovada. Mas os gastos sociais deixaram a economia vulnerável. Hoje, o que o país paga de serviço da dívida pública (US$ 6 bilhões) já é quase o que se gasta em saúde e educação (US$ 7 bilhões). Correa sai da cena pública, mas sua herança deve tornar a vida do próximo presidente mais difícil. 

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