Em crise, União Europeia ganha Nobel da Paz e argumento contra eurocéticos

No momento em que atravessa sua mais grave crise política e econômica, a União Europeia (UE) celebrou ontem uma conquista histórica: o Prêmio Nobel da Paz de 2012. A decisão do comitê de experts, anunciada no fim na manhã, em Oslo, na Noruega, pegou de surpresa a opinião pública do bloco de 27 países.

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2012 | 03h01

Nas principais capitais do continente, a notícia foi recebida como uma bênção por líderes políticos e intelectuais pró-integração, que enfrentam uma contestação crescente de partidos de extrema direita e movimentos nacionalistas. Ontem mesmo em 90 cidades da Itália, estudantes protestaram contra a eliminação de bolsas e a declaração do ministro da Educação, Francesco Profumo, que defendeu para os estudantes a política de "porrete e cenoura".

Até a manhã de ontem, nomes como o de Maggie Gobran, diretora de um instituto para auxílio à infância no Egito, Gene Sharp, americano que milita por revoluções não violentas, e Sima Samar, ativista afegã da luta contra o uso da burca, eram apontados entre os favoritos em uma lista de 231 indicados. Dessa relação, também fariam parte Julien Assange, fundador do WikiLeaks, e até a rede de TV do Catar Al-Jazeera, por sua cobertura da Primavera Árabe. Poucos apostavam, mas a imprensa norueguesa já evocava a possibilidade de que a UE seria a contemplada.

O anúncio foi feito em comunicado: "O Prêmio Nobel da Paz foi atribuído à União Europeia por ter contribuído durante mais de seis décadas para a promoção da paz e a reconciliação, a democracia e os direitos humanos na Europa", dizia o texto.

A seguir, o coordenador do Comitê Nobel Norueguês, Thorbjorn Jagland, ex-primeiro-ministro do país - reputado por sua posição pró-integração -, justificou a escolha. "A UE enfrenta atualmente graves dificuldades econômicas e distúrbios sociais consideráveis", ponderou, lembrando que a integração transformou "um continente de guerra em um de paz". "O Comitê Nobel Norueguês deseja se concentrar no que ele considera o resultado mais importante: a luta bem-sucedida pela paz, a reconciliação, a democracia e os direitos do homem."

Surpresa. Mesmo que a história explique a escolha, nas ruas de Paris, a informação foi recebida com enorme surpresa, mas também com satisfação pela maioria das pessoas com quem a reportagem do Estado teve contato.

Já nas universidades e nos escritórios políticos de Bruxelas, a notícia caiu como uma unção política em um momento de grave crise econômica. "Nós estamos muito orgulhosos que nossos esforços em favor da paz na Europa sejam recompensados", afirmou Herman Van Rompuy, presidente da UE, entusiasmado. "A Europa atravessou duas guerras mundiais no curso do século 20 e nós instauramos a paz. A União Europeia é a maior força de paz da história."

Ao longo do dia, políticos do passado e do presente vieram a público ressaltar os méritos da integração - muito atacada por movimentos extremistas. Para Helmut Kohl, ex-chanceler da Alemanha e um dos artífices do euro, a moeda única, classificou a distinção como um "encorajamento" para que "a Europa siga na via da união". "O Nobel de 2012 é antes de mais nada uma consagração do projeto pela paz."

Valéry Giscard d'Estaing, ex-presidente da França e um dos autores da fracassada Constituição Europeia - rechaçada por franceses e holandeses em 2005 -, celebrou o reconhecimento. "É justo que o esforço extraordinário feito pelos europeus e seus dirigentes para estabelecer a paz definitiva no continente seja reconhecido e honrado."

Na Alemanha, Angela Merkel definiu a decisão como um estímulo para que a UE avance na direção das reformas políticas e econômicas. Lembrando a crise do euro, a chanceler afirmou: "O euro é mais do que uma moeda e nós não deveríamos esquecer disso nas semanas e meses em que trabalhamos para reforçá-lo". "O euro é uma ideia de Europa como comunidade de paz e de valores", completou.

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