Em Cuba, velhas geladeiras são orgulho nacional

Projeto para substituir eletrodomésticos americanos da década de 50 por novos, da China, encontra resistência

Simon Romero, THE NEW YORK TIMES, HAVANA, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2008 | 00h00

Se você acha que a Guerra Fria acabou há anos, certamente não visitou as cozinhas de Cuba.No ano passado, antes de desaparecer da vida pública, Fidel Castro recrutou a ágil indústria chinesa para se livrar de alguns dos símbolos mais teimosos do imperialismo americano: os refrigeradores Frigidaire, Kelvinator e Westinghouse da década de 50. O governo adquiriu mais de 300 mil refrigeradores chineses novos para substituí-los. O carregamento é parte de um projeto para melhorar a eficiência energética num país sem dinheiro e eliminar o que Fidel chamou de "dragões que devoram nossa eletricidade".Mas a erradicação desses refrigeradores - ao lado de alguns modelos soviéticos importados nos anos 70 - causa melancolia e angústia. Nas décadas de isolamento econômico, os cubanos aprenderam a se orgulhar do modo como mantêm velhas maravilhas mecânicas funcionando - incluindo antigos Cadillacs e Ladas russos."Levaram meu velhinho e deixaram um garoto", disse uma cozinheira de 47 anos que mora no distrito de Reparto Zamora, no oeste de Havana. Na cozinha, ela apontou para o esbelto refrigerador chinês Haier no lugar do volumoso Frigidaire cor-de-rosa que acompanhara a família por 24 anos. A cozinheira, que não quis revelar o nome por temer represálias, reclamou que cabiam muito mais coisas na antiga geladeira.Os cubanos não são obrigados a adotar os refrigeradores chineses, mas há fortes incentivos para que eles o façam. Ao ser oferecido a uma cidade ou bairro, o programa de troca é apresentado como a menina dos olhos de Fidel, uma oportunidade para que o povo demonstre seu patriotismo e, ao mesmo tempo, reduza a conta de luz. No entanto, ao contrário da educação e da saúde, os refrigeradores não são de graça em Cuba. Os novos modelos chineses custam cerca de US$ 200, uma pequena fortuna num país onde o salário médio mensal é de US$ 15. Planos de pagamento de dez anos estão disponíveis.No ano passado, inspirado pela engenhosidade necessária para manter os refrigeradores americanos funcionando por tanto tempo, um grupo de artistas cubanos transformou 52 deles em obras de arte. Eles montaram uma exposição chamada Manual de Instruções, que fez grande sucesso em Cuba e atualmente viaja pela Europa. Uma das peças, de autoria de Alejandro e Esteban Leyva, é uma velha geladeira General Electric pintada de verde-oliva e com medalhas na porta. Seu nome é General Eléctrico.Mesmo assim, o mais freqüente é a necessidade vencer o sentimentalismo. Milhares de refrigeradores estão indo para depósitos de lixo, onde técnicos reciclam tudo o que podem - aço, plástico, alumínio e cobre. "Para onde vão as velhas geladeiras?", perguntou o jornal oficial Granma. "Delas, tudo é reaproveitado."

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