Esteban Collazo/Argentine Presidential Press Office via AP
Esteban Collazo/Argentine Presidential Press Office via AP

Em Davos, presidente da Argentina diz que 'desde o começo da pandemia, conversou com laboratórios'

Alberto Fernández afirma que cooperação entre setores público e privado 'permitiu à indústria argentina integrar produção da vacina Oxford e AstraZeneca para toda a América Latina'

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2021 | 08h00

O presidente da Argentina, Alberto Fernández, discursou por videoconferência no Fórum Econômico Mundial, em Davos, nessa quinta-feira, 28, e afirmou que, "desde o início da pandemia, iniciou conversas com diversos laboratórios" para adquirir vacinas contra a covid-19.

"A pandemia nos mostrou, mais uma vez, que para fazer frente aos grandes desafios globais devemos cooperar entre atores públicos e privados", disse.

Alberto Fernández destacou que esta "cooperação permitiu à indústria argentina intervir em um esquema de integração produtiva, junto com o México, na produção da vacina Oxford e AstraZeneca para toda a América Latina".

"Isso nos permitirá promover uma campanha de vacinação que primeiro preserve os setores mais expostos ao risco da pandemia", afirmou.

A Argentina já está produzindo o princípio ativo (Ingrediente Farmacêutico Ativo) do imunizante da Oxford/AstraZeneca, sendo o primeiro país da América Latina a fazê-lo.

O IFA produzido na Argentina pela empresa mAbxience é enviado ao México, onde  a vacina é processada pelo laboratório Liomont.

A  distribuição será feita para todos os países latino-americanos, com exceção do Brasil. Com isso, Argentina e México se transformarão em centros de produção de vacina para os países latino-americanos. Espera-se que, no segundo semestre, o Brasil também comece a produzir o princípio ativo, no lugar de importá-lo.

Fernández disse em Davos que a vacina deve ser "um bem público global" e que vivemos em "uma época em que todos os paradigmas são postos à prova". Ele defendeu prestar atenção "aos mais vulneráveis, os deixados de lado", o que "não é uma teoria mas sim uma convicção" que o seu governo carregou desde o início da pandemia. "A opção não é entre a vida e a economia; é a vida com mais e melhor economia", ele disse.

Sua declaração contraria sua posição no começo da pandemia, quando sustentou por diversas vezes que a economia poderia esperar até o controle da pandemia e que um país "só não recupera seus mortos". Embora tenha tido uma das quarentenas mais longas do mundo, a Argentina tem um alto índice de mortalidade pela pandemia.

O presidente argentino disse que a recuperação da atividade econômica é mais rápida do que o esperado pelo governo. "Nosso setor industrial vem fazendo uma recuperação notável: em novembro passado, a economia havia chegado a 87% da produção perdida com a pandemia. Na indústria já registramos 4.500 empregos que não existiam antes da pandemia e estamos há cinco meses em uma retomada do emprego industrial", afirmou.

As declarações acontecem um dia após o FMI ter recalculado para baixo a expectativa de crescimento do país para 2021. Fernández afirmou que, embora o diálogo com o fundo para uma nova pactuação da dívida tenha sido muito construtivo, "não há espaço para ajustes irresponsáveis e impossíveis."

"O diálogo com o FMI está em andamento e tem sido construtivo até agora. Recebemos inúmeros apoios da comunidade internacional, do G-20. A renegociação com o FMI incorporará novas perspectivas macroeconômicas e um entendimento da economia local", disse o presidente. "Não há mais espaço para ajustes irresponsáveis, impossíveis de cumprir, que prejudicam tanto nossa credibilidade como a de quem confere uma assistência irrealista."

Ele anunciou que o programa a ser pactuado com o fundo "será enviado ao Congresso para envolver toda a liderança política em uma trajetória de desenvolvimento que tenha sustentabilidade da dívida, inclusão social e transparência como políticas de Estado".

O chefe de Estado referiu-se à crise de crédito que o país enfrenta.  Ele afirmou que o país reestruturou sua dívida com credores privados estrangeiros e que agora iniciou negociações com o Fundo Monetário Internacional para refinanciar US$ 44 bilhões.

"Em meio à pandemia tivemos que lidar com outro vírus não menos destrutivo, uma dívida tóxica e irresponsável", disse.

O presidente indicou mais uma vez que dará início a um Conselho Econômico e Social, que já tinha anunciado em 2020, no qual reunirá todos os setores com o objetivo de definir "rumos previsíveis a médio e longo prazo".

Fernández apoiou o multilateralismo e a "multissolidariedade", e disse que a pandemia não é um acidente, mas "um alerta" para a "casa comum", um conceito ao qual o Papa Francisco muitas vezes alude. O líder argentino falou em restabelecer"o sentido ético" da economia e em preservar setores mais vulneráveis.

"A pandemia foi um alerta, precisamos de uma casa comum com diferentes fundações. Nesse momento, todos os paradigmas são postos à prova. O imperativo moral é priorizar os últimos, os descartados, os mais vulneráveis. A fraternidade deve ser o novo nome do desenvolvimento e da solidariedade, da paz social", disse o presidente. "Nisso os Estados e as empresas devem se comprometer, é uma convicção que levamos adiante na Argentina." /AFP e EFE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.